Fic

NO NEEDS
por Lauh Malfoy


3º lugar no I Challenge Scorpius e Lily do Fórum do 3V. “Céus, como pudera ele pensar que não precisava dela?”

Ship: Scorpius Hyperion Malfoy e Lily Luna Potter | Orientação: Hétero | Classificação: 14 anos | Gênero: Romance | Spoilers: 7 | Formato: ShortFic | Capítulos: 1 | Status: Completa | Idioma: Português | Observação: Nova Geração | Publicada em: 06/04/2008 | Atualizada em: 06/04/2008

Disclaimer: Alguns personagens, lugares e citações pertencem a J.K. Rowling, Scholastic Books, Bloomsbury Publishing, Editora Rocco ou Warner Bros. Entertainment. Essa estória não possui fins lucrativos.




N.A.: Eu não falo isso na fic porque acho desnecessário, mas a fic passa-se algures numas férias de Verão, nas quais Scorpius já tem 17 anos e a Lily 15. Não sei quanto às restantes fics, mas na minha a Astoria tem cabelos castanhos e olhos azuis. E eu apenas não consigo acreditar no quão boazinha eu fui para a Greengrass. Tendo isso em conta, boa leitura!

Desviou o seu olhar do tecto para a ruiva ao seu lado, que o fitava em silêncio.

Um sorriso dela acompanhou o brilho dos seus olhos castanhos ao que, Scorpius, respondeu com um meio sorriso e com o piscar de um olho. Depois, afastou os cabelos dela das suas costas nuas e beijou-a numa das omoplatas.

Ela riu.

A pele de Lily era macia e branca, com um leve cheiro a morango, factos esses que inebriavam o loiro e o impediam de olhar para qualquer outra pessoa que não fosse ela.

Encostou-se à cabeceira da cama enquanto procurava por um cigarro na gaveta da sua mesa-de-cabeceira, sob o olhar atento da ruiva. Quando o achou, acendeu-o e tragou longamente para, segundos depois, libertar o fumo numa grande nuvem difusa que logo desapareceu completamente.

- Desde quando é que tu fumas? – Lily perguntou, e a nota de repreensão na sua voz fez o coração de Scorpius falhar uma batida.

- Há algumas semanas. – deu de ombros.

- Eu nunca te tinha visto fumar.

- Óbvio, Lily. Querias que fumasse em frente a todos, incluindo os meus pais? – tragou de novo – A minha mãe teria uma síncope.

- E com razão. – a ruiva apoiou a sua cabeça numa das mãos – Fumar faz mal, toda a gente sabe.

Scorpius girou os olhos enquanto expelia o fumo em pequenas quantidades. Por fim, acrescentou, como que resolvendo a questão.

- O meu pai fuma.

- Também nunca o vi fumar.

- Ele também não fuma muito.

- Ah…

Lily observava-o em silêncio, – algo muito comum depois de fazerem sexo, ainda que, por vezes, se tornasse ligeiramente incómodo – enquanto o rapaz continuou a fumar. Perguntara-lhe, uma vez, porque o fazia, mas a resposta da ruiva foi agarrar-se à almofada. A partir daí, nunca mais questionou os seus actos.

Na verdade, ele próprio a observava enquanto ela dormia, apenas para confirmar várias vezes que ela tinha umas poucas sardas no nariz e que mal se viam.

Mas, ao fim de uma ou duas horas, Scorpius levantava-se como sempre fazia e partia sem lhe dar uma explicação. Afinal, eles não eram nada um ao outro e apenas se encontravam para aplacar as alterações constantes das suas hormonas.

E Scorpius era muito feliz assim, independentemente do que Albus dizia sobre o amor ou sobre ter uma namorada que sempre esperava depois do treino de Quidditch para dizer que sentia saudades dele.

Não precisava ter um compromisso sério com alguém, não havia necessidade disso. Não havia falta disso.

- Scorpius? – ele olhou para ela quase que instantaneamente – Como te sentes?

- Ahn? – perguntou de volta, completamente apanhado de surpresa com singularidade da questão, e franziu o cenho.

- O que sentes? – ela repetiu – Felicidade?

O loiro ponderou durante alguns segundos enquanto rodava distraidamente o cigarro entre os seus dedos.

- Sim, algo do género. – tragou – E tu? – se o rapaz soubesse o desenvolvimento daquela conversa, provavelmente não teria feito a pergunta. Contudo, o instinto e a educação dizem-nos para fazermos a pergunta de volta, sempre aguardando uma resposta positiva. Por isso, Scorpius não conseguiu evitar franzir o cenho ao ouvir a resposta da ruiva.

- Sinto-me estranha. – tragou uma última vez antes de apagar o cigarro no cinzeiro que tirara, também, da gaveta; olhou de seguida para a ruiva, incitando-a a continuar. – Sinto-me quase… melancólica.

- Porquê? Fiz alguma coisa que te magoou? – a ruiva suspirou longamente, deixando que o rapaz colocasse uma mecha dos seus cabelos atrás da sua orelha.

- Scorpius… O que é que nós temos? Uma relação?

- Já falámos sobre isso, Lily. – retrucou – Até mais que uma vez.

- Sim, e a conclusão era de que tudo se resumia a sexo, nada mais que isso. Mas essa foi a conclusão que tirámos à três meses atrás. – respondeu-lhe; alguma irritação já visível no seu tom de voz.

- Exacto. A conclusão mantém-se. – aproximou-se da face dela mas, quando os seus lábios estavam prestes a beijar a boca da ruiva, ela virou-lhe a cara – Lily, por favor!... – exasperou.

- É isso? – sibilou ela – A única coisa que nos liga ao fim de seis meses é sexo?! – Scorpius coçou os olhos.

- Mas que merda! Nunca te queixaste antes!

- E mesmo que o fizesse tu não te importavas, não é? – levantou-se e começou a apanhar a sua roupa que estava espalhada pelo quarto do Slytherin – O que importa é unicamente o bem-estar e diversão de Scorpius Hyperion Malfoy, o resto que se lixe!

- O que raio estás a fazer?!

- Vou-me embora. Já gastei demasiado tempo aqui. – começou a vestir o seu top enquanto os seus olhos percorriam o chão à procura dos seus calções – Aliás, eu já gastei demasiado tempo contigo! – foi a vez de o loiro se levantar com raiva, o seu orgulho ferido, e vestir rapidamente os boxers para, depois, se dirigir à rapariga.

- Repete lá isso de novo?! – Lily fitou-o sem hesitação, o olhar cheio de raiva e com um aviso mudo de desafio.

- Eu já gastei demasiado tempo contigo! – o loiro gargalhou nervosamente e baixou-se para apanhar os calções dela quando os percebeu tão perto dos seus pés.

- Sabes que mais, Potter? – atirou-lhe os calções com um pouco mais de violência do que desejava, mas a raiva que sentia era de tal ordem que, mesmo assim, não se impediu de prosseguir – Desaparece.

Foram segundos tensos aqueles que antecederam a saída de Lily pela porta do quarto do rapaz. Segundos nos quais os olhos dela e os dele disfarçaram o repentino vazio que sentia.

xx

- Astoria, pela quarta vez desde que saímos da loja, o vestido não te faz ficar gorda. – girou os olhos.

- Tens a certeza, querido?

- Astoria! – gritou, sentindo-se exasperado.

- Certo, desculpa! – com um movimento de varinha a porta da Mansão Malfoy abriu-se e Draco e Astoria entraram na casa.

Deram os casacos aos elfos e ordenaram-lhes para irem buscar os sacos às devidas lojas.

- E quero isso para hoje. – Draco disse – E quando voltarem-

Mas o homem não terminou a frase porque um grito de Astoria preencheu o ambiente.

- O que se passa? – perguntou assim que alcançou a sua mulher. Mas, logo depois, apercebeu-se que uma ruiva os olhava com uns calções parcialmente abertos, lágrimas na face e a boca aberta.

- E-Eu… lamento… Er…

- Quem és tu?! – gritou a mulher,

- Er… E-Eu… - Draco franziu o cenho enquanto a rapariga terminava de apertar os calções e fungava de forma bastante audível – N-Não se preocupem. Estou de saída.

- És a filha do Potter. – o loiro constatou. Astoria trocou o olhar ligeiramente amedrontado por um olhar surpreso. Já a jovem empalideceu.

- Isto n-não se volta a repetir. – fungou novamente e limpou uma lágrima – J-Juro.

- Mas afinal o que fazes aqui?! – perguntou Astoria.

- N-Nada, Mrs. Malfoy. – e desceu as escadas quase a correr em direcção à lareira, onde agarrou um pouco de Floo Powder¹ e desapareceu depois de gritar “Mansão Potter”.

- Não vais fazer nada, Draco? Ela invadiu a nossa casa!

Draco permaneceu a olhar a lareira por mais alguns segundos, até que, por fim, disse:

- Vou falar com Scorpius. – deu um beijo à morena e dirigiu-se para o quarto do filho. Alguma coisa estava mal e ele ia saber o quê.

xx

- Scorpius? – o rapaz ignorou o chamado do seu pai, continuando a olhar para a janela. Atrás de si, a porta abriu-se e o loiro ouviu os passos do seu pai – Não é nada correcto deixar uma dama ir para casa sozinha de calções abertos. Especialmente depois de a levares para a cama. – as palavras poderiam parecer amenas, mas por trás havia um claro aviso de que Draco Malfoy não toleraria mentiras e muito menos ser ignorado.

Por essa razão, Scorpius virou-se lentamente, evitando olhar o seu pai nos olhos.

- O que eu disse é mentira?

- Não. – atreveu-se a olhar para o pai. Os seus olhos cinzentos observavam-no de forma cortante.

- E será que me podes explicar que merda é que fizeste, Scorpius Hyperion?

- Não fiz nada.

- Eu chego a minha casa e vejo a filha do Potter a chorar e de calções abertos nas escadas e tu queres que acredite que não aconteceu nada?!

O rapaz inspirou e cruzou os braços.

- Não foi a primeira vez que estivemos juntos.

- Como se isso fosse justificação para o que acabou de acontecer… - enfiou as mãos nos bolsos das calças – Ela é tua namorada?

- Não. – o seu pai coçou os olhos.

- Certo, vamos tentar de outra forma: o que se passa, afinal, entre vocês os dois?

- Nada. – o jovem olhou para o pai, que o observava de forma nada amigável – Okay, eu conto.

- E depressa. – sibilou.

- Eu e a Lily… mantemos uma… relação à cerca de seis meses.

- Acabaste de me dizer que ela não era tua namorada.

- E não é. A nossa relação é… A nossa relação limita-se a… - clareou a voz – A… sexo. – qualquer jovem pensaria que o seu pai iria ralhar consigo, começar a contar situações que lhe acontecera na adolescência, ou até ter conversas idiotas sobre como se fazem os bebés e de que métodos de protecção e contracepção são nossos amigos, mas nenhum esperaria que o seu pai risse.

Pois foi isso que Draco Malfoy fez: riu-se.

- Espera: tu queres fazer-me acreditar que tens uma relação com uma miúda à seis meses e não passa de sexo?

- É a verdade. – retrucou irritado – Não passa de sexo, pai.

As palavras saíram tão frias, que até o próprio Scorpius se surpreendeu com elas.

- Foi isso que disseste à Potter? – o rapaz desviou o olhar para a janela – Scorpius, já tens idade suficiente para agir de forma mais racional. Aliás, também tens idade para saber que se me roubares maços de cigarros e os fumares no quarto eu vou saber.

- Desculpa, não vou voltar a fazê-lo.

- Também vais dizer isso à Lily Potter?

Fitaram-se durante alguns segundos, nos quais Scorpius se questionou: estaria ele certo? Era só sexo?

Quando finalmente pareceu alcançar uma resposta, o seu pai já tinha saído do quarto.

xx

Deu uma última tragada no cigarro e apagou-o no cinzeiro que colocara em cima da mesa ao seu lado. A varanda do quarto principal – o seu e de Astoria – tinha uma vista magnífica e que ele adorava observar. Quando era pequeno, e corria para o quarto dos pais depois de algum pesadelo, Narcissa enrolava-o num cobertor e ficava com ele ao colo, a observar as estrelas. Lucius observava tudo na cama com um meio sorriso.

Agora, depois de ter casado, continuava a olhar o céu quase todas as noites e chegara a levar Scorpius para fazer o mesmo, também quando este era pequeno. Astoria nunca percebera exactamente porque o fazia; apenas comentava, a cada vez que o filho de ambos se aconchegava no peito do pai, que a cena era “linda”.

- O que se passa, amor? – ouviu Astoria perguntar, num sussurro, bem perto do seu ouvido.

- Nada.

- Mas estavas a fumar! Ultimamente só o fazes quando algo te preocupa. Está relacionado com a conversa que tivestes com o nosso filho? – Draco olhou para ela e fez um sinal discreto para o seu colo. Logo, Astoria aconchegava-se nos braços do seu marido, enquanto ele encostava a sua cabeça nas costas da cadeira.

- Acho que ele está apaixonado.

- E então?

- Não quer admitir que a ama.

- Mas isso não é tipicamente Malfoy? – o loiro gargalhou.

- Sabes bem que não.

- Eu sei. – lentamente, Draco começou a fazer festas no cabelo da mulher – Espera lá… - ela levantou a cabeça – O nosso Scorpius está apaixonado pela filha do Potter?

- Aparentemente, sim.

- E isso não te preocupa?! – olhou-a seriamente.

- Preocupa-me mais o facto de ele se achar feliz sem ela e de se aperceber tarde demais que a ama, do que propriamente o facto de ela ser filha do Potter.

- E tu vais permitir que isso aconteça?

- Astoria, o Scorpius já tem idade suficiente para saber de quem gosta! Eu não vou proibi-lo de gostar da rapariga!

- Mas e o escândalo? Já imaginaste as manchetes dos jornais? – o loiro fez um som de incredulidade.

- Preocupas-te mais com o escândalo do que com o teu próprio filho!

- Eu não disse isso! E ele está perfeitamente bem! Tu é que estás a ficar paranóico!

- Eu é que estou a ficar paranóico? TU é que nunca te preocupas com ele!

- Isso é mentira! – a esta altura, ambos estavam levantados e se encaravam furiosamente.

- Ele não acha que seja, sabes? – ela mostrou surpresa nos primeiros segundos – Ele acha que a única coisa que te interessa é ir às compras, ler revistas de mulheres, dar lanches e festas!

- Eu preocupo-me com o meu filho! – gritou, os olhos já a brilhar.

- Não o demonstras, Astoria. Tem sido sempre assim!

- Isso é-

- E agora que o teu filho arranja um problema sério, – porque, acredita, ele é bastante sério, tendo em conta que Scorpius nunca nos arranja problemas – tu limitas-te a temer o escândalo! Não temes por ele, pelo que ele pode estar a sofrer, pelas suas dúvidas!... – fez uma curta pausa, na qual se repreendeu mentalmente por não ter trazido mais um cigarro e não ter a varinha consigo – Sabes tão bem quanto eu que um Malfoy não tem relações duradouras quando pode apenas divertir-se – o que não signifique que sejamos uns boémios.

- E o que tem isso que ver, Draco Malfoy?! – Astoria limpou uma lágrima com agressividade.

- Ele está com ela à seis meses e denomina a relação como “apenas sexo”. O problema não está no nome dela, mas sim neles! No quão diferentes são. E, principalmente, no quão teimoso o Scorpius é! Ele vai perdê-la se não mudar de atitude e vai-se magoar e devia ser com isso que te devias preocupar!

- Quem te ouvir falar pensa que já passaste pelo mesmo! – revidou.

Olharam-se durante algum tempo até que Astoria desviou o olhar e tentou limpar as lágrimas que caiam pela sua face. Draco, então, aproximou-se dela e abraçou-a, deixando que as lágrimas continuassem a cair e molhassem a sua camisa.

Se os cabelos escuros de Astoria fossem substituídos por cabelos ruivos, ele repetiria aquilo que tinha feito à muitos anos a uma certa ruiva e limparia ele próprio as lágrimas da mulher.

xx

Lily Potter. Cabelos ruivos flamejantes, olhos castanhos, pele branca e algumas sardas junto ao nariz. Ela era uma rapariga como qualquer outra e Scorpius Malfoy não precisava dela. Não precisou durante seis meses, porque precisaria agora?

Voltou a cheirar a almofada. O cheiro de Lily estava impregnado no tecido e não o deixava dormir.

Mas ele nunca precisaria dela.

xx

Sentiu-se ser abanado levemente e a escuridão foi gradualmente substituída pelos lençóis da sua cama. Estava agarrado à almofada e o cheiro de Lily voltou a entrar nas suas narinas, fazendo-o sorrir levemente.

- Lily… - sussurrou.

- Não, sou eu, filho. – a voz da sua mãe fê-lo levantar a cabeça repentinamente.

- Mãe? O que fazes aqui? – viu quando ela hesitou e como rodava a aliança de casamento no dedo; sinal de nervosismo.

- Queria falar contigo.

- Olha, se é sobre o que aconteceu ontem, lamento-

- Não, não! É outro assunto. – Scorpius franziu o cenho – Porque é que nunca me disseste, filho?

- O que, mãe? – o loiro sentou-se enquanto via a sua mãe disfarçar algumas lágrimas.

- Que eu não… não te dava a atenção que precisavas.

O jovem olhou-a por longos momentos, até que a abraçou de forma hesitante, tentando confortá-la.

- Esquece isso, mãe.

- Desculpa, eu n-nunca pensei-

Scorpius quis dizer que isso não o surpreendia, mas tal só iria piorar a situação.

- Não faz mal, mãe.

- Eu amo-te tanto, meu filho, tanto. – sorriu genuinamente enquanto a abraçava com mais força, ainda que se sentisse constrangido.

- Eu sei, mãe. – ela olhou-o como que procurando a confirmação daquelas palavras nos seus olhos – Sempre soube que gostavas de mim. Apenas quis…

- Mais atenção.

- É. – e deixou que Astoria o abraçasse de volta e lhe beijasse os cabelos.

xx

- Pai, estou aqui há uma hora e meia. – Draco levantou os olhos do livro sobre o desenvolvimento de variadas poções ao longo dos anos e observou o filho.

- Eu sei. – Scorpius girou os olhos antes de prosseguir.

- E então?!

- E então o quê? – bufou perante o olhar divertido do pai. Estava farto de filosofias de vida. E de esperar fosse pelo que fosse.

- Chamaste-me aqui e disseste que tinhas algo para falar comigo. Mas eu estou há uma hora e meia que acabes de ler o bocadinho que te faltava do capítulo doze.

- Na realidade, já vou no capítulo dezasseis.

- Mas tu disseste…!

- Pois disse. – voltou a olhar para o livro – Estou à espera que chegues a uma conclusão.

- Já cheguei.

- E?

- Concluí que da próxima vez que me chamares para jantar vou-te deixar à espera duas horas e meia. – foi a vez de o homem girar os olhos.

- Scorpius, vamos conversar de forma decente.

- Finalmente! Eu tinha coisas marcadas com… - “Lily”, ele pensou. Mas, afinal, desde que ela saíra zangada de sua casa, não havia nada marcado – Esquece. – e encostou-se no sofá de braços cruzados, colocando uma perna num dos braços do sofá.

- Ah, afinal chegaste a uma conclusão! Mas depois do que lhe fizeste, suponho que ela não tenha esperado por ti fosse onde fosse, - viu-o franzir o cenho.

- Fizeste-me esperar uma hora e meia para voltares a esta conversa?

- Alguém de te abrir os olhos. É patética a forma como andas por aí a arrastar-te pelos cantos e como insistes em dizes que não gostas dela.

- E eu não gosto dela.

xx

Scorpius nunca ligara muito à biblioteca. A sua mãe gostava de ler romances, o seu pai lia de tudo um pouco – mantendo uma distância segura dos romances demasiado açucarados – e ele, que nunca fora um aficionado pela leitura, limitava-se, basicamente, à acção. Ele não se recusava a ler o restante, apenas não se interessava tanto.

A única razão para que ele estivesse na biblioteca naquele momento era por não ter nada que fazer. Estava tão entediado que decidira ver se encontrava alguma coisa por ali.

Por isso, olhava agora para as enormes estantes forradas de capas de diversos desenhos, cores, feitios e tamanhos, esperando que algo lhe chamasse a atenção.

E chamou.

Um espaço entre dois livros bem no cimo da estante, demasiado pequeno para ser a falta de um livro e demasiado grande para ser, simplesmente, um espaço entre os dois livros.

Subiu as escadas que estavam logo em frente à estante e surpreendeu-se com o que encontrou.

Um pequeno livro de capa vermelha, aparentemente encadernado à mão. Aliás, tudo ali aparentava ser feito à mão: desde a capa às páginas, até aos decorativos e à numeração.

Desceu as escadas com o livro na mão e sentou-se naquele que era o sofá preferido do seu pai.

O título do livro estava escrito a tinta dourada e com uma letra cuidada. Parecera-lhe um patético livro com um conto bruxo, tipicamente para crianças. Mas, então, porque estava o livro visivelmente velho e meticulosamente escondido e conservado?

xx

A Magia Está Em Nós

Ginevra era uma menina muito bonita com grandes cabelos ruivos. Porém, era tímida demais e, por isso, tinha dificuldade em arranjar amigos.

Perto dos seus quinze anos, conheceu um rapaz, também ele bastante bonito, de cabelos loiros e dois olhos prateados e brilhantes como um diamante.

Ambos se davam mal devido às coisas que diziam um sobre o outro e sempre se recusaram a encarar as parecenças como reais.

Até ao dia em que uma tempestade os obrigou a ficar numa cabana há muito tempo abandonada.

- Odeio estar aqui consigo. – ele disse.

- Pois também eu odeio estar na sua presença! – mas houve algo no olhar brilhante dele que a petrificou. O cinza nunca lhe parecera tão brilhante como naquele momento e, para ele, cabelos ruivos nunca foram tão elegantes.

Quando deram conta de si, já estavam com os lábios demasiado juntos para se poderem separar.

Scorpius apertou os olhos. Que raio era aquilo?

xx

Não preciso de si. Aliás, Ginevra, eu não preciso de ninguém.

- Vai chegar o dia em que se aperceberá que mente.

- Não. – a sua resposta foi rápida demais – E talvez seja melhor você sair.

Olharam-se durante alguns momentos. A rapariga tinha os olhos vermelhos de chorar e ele, apesar de mostrar indiferença, sentia-se vazio. As suas mãos ainda estavam húmidas de ter limpo as lágrimas da face dela.

- Sabe, não adianta mandar-me partir. Eu nunca partirei.

Enquanto o meu cheiro permanecer na sua pele,

o meu sabor nos seus lábios,

o meu olhar na sua mente,

a textura da minha pele nas suas mãos…

Enquanto o seu coração me pertencer,

eu não partirei.

- Saia da minha vista! Parta imediatamente! Parta com a sua magia idiota e os seus cabelos flamejantes. Parta da minha mente, do meu coração. Parta e não volte.

Ginevra sorriu ainda que pela sua face voltassem a cair algumas lágrimas.

- Eu não partirei porque, por mais que o negue, continuarei sempre em si. A magia a que se refere não desaparece, apenas se solidifica com os anos.

Eu nunca vou partir, Draco.

E assim, ela partiu. Partiu da sala, da casa, da rua, da vila e até da cidade. Partiu fisicamente. Mas o seu cheiro permaneceu nele.

E, por alguma razão, tudo aquilo pareceu demasiado familiar a Scorpius.

xx

No fim da história, havia apenas um “G.” como assinatura. Dez simples páginas pequenas, feitas à mão, que contavam algo romântico de forma demasiado semelhante à realidade.

Virou a última página, onde algo estava escrito a tinta prateada, dificultando a sua leitura.

Um dia vais aperceber-te de que mentes. O teu orgulho não te permitirá voltar atrás nem te deixará pedir desculpas. Mas eu perdoo-te, Draco. De uma forma que eu nunca achei que seria capaz.

Amo-te. E esta magia será eterna.

Por baixo estava, então, a fotografia de um Draco mais novo, sério, que mudava gradualmente para um sorriso enquanto uma ruiva fazia caretas. No fim, beijavam-se.

xx

Quando Draco chegou à biblioteca, Scorpius ainda tinha na mão o pequeno livro que encontrara.

- Até estou admirado que-

O homem parou a frase ao notar o que o jovem tinha em mãos. Por momentos, Scorpius viu os olhos do seu pai arregalarem-se para, logo de seguida, se tornarem impassíveis.

- Estava à procura de um livro e encontrei isto. – Draco manteve a sua pose de indiferença e colocou as mãos nos bolsos – Não sabia que tinhas namorado com a mão da Lily.

Draco gargalhou e baixou os olhos.

- Eu não namorei com ela. A nossa relação limitou-se a oito meses de sexo. – e, com um sorriso ligeiramente amargurado, voltou a sair da sala.

Óptimo, agora o seu pai também se ia arrastar pelos cantos.

Espera aí: também? Quem é que se arrastava para além de Draco?

Ah, pois. Ele próprio.

- Merda.

xx

- Pai? – viu o homem desviar o olhar da janela – Eu… vou sair.

- E vais resolver alguma coisa? – Draco deu um sorriso irónico.

- É. Acho que sim. – observou o seu pai levar o cigarro à boca e tragar lentamente – Voltei a colocar o livro no sítio. – viu-o baixar ligeiramente a cabeça – Costumas lê-lo muitas vezes?

- Algumas. Já sei as palavras de cor. – aproximou-se dele – Não sei o que ficaste a pensar, Scorpius, mas eu amo a tua mãe. De uma forma diferente, mas amo-a.

- Eu sei, pai. – sorriu – Não te preocupes. – e abraçaram-se como não faziam à muito tempo. Decididamente, Scorpius tinha saudades de estar no colo do pai e observar as estrelas.

xx

As escadas tinham um propósito muito bem idealizado, verdade, mas quem as inventou terá alguma vez pensado que Scorpius iria contar quantos degraus aquela (aparentemente) enorme escada tinha? Claro que não. Porque se tivesse, o construtor teria feito menos degraus ara chegar à porta da Mansão Potter. Ou não teria feito nenhumas, o que era ainda mais positivo.

Bateu à porta e, segundos depois, viu-a ser aberta pela própria Lily, que o encarou de forma surpresa.

- Scorpius?

- Não, o Merlin de lingerie. – retrucou.

- O que estás aqui a fazer? – a ruiva limitou-se a ignorar o comentário anterior.

- Vim falar contigo. – Lily desviou-se e deixou que o loiro entrasse para o hall.

Com sorte, nenhum dos Potters do sexo masculino estava em casa. Melhor ainda, seria se ela estivesse completamente sozinha. Mas isso já era abusar da sorte.

- E então? – incitou Lily, enquanto olhava distraidamente para algumas mechas do seu cabelo.

- Queria perguntar-te se achavas uma boa ideia ires almoçar lá a casa. – ela olhou-o de forma confusa – Como minha namorada. – os olhos dela arregalaram-se de espanto e o loiro não consegui evitar sorrir – Afinal, seis meses de namoro é muito tempo.

E no segundo seguinte os braços dela rodeavam o seu pescoço.

- Desculpa, Lily. – sussurrou. Céus, como pudera ele pensar que não precisava dela?

xx

- Mãe, vou sair.

- Com quem? – Ginny perguntou.

- Com o Scorpius. – e fez um pequeno sinal, incitando-o a entrar na cozinha. De forma hesitante, deu as boas tardes.

- Ah, o amigo do Albus! Vai lá, então. – Lily correu da cozinha e o loiro pôde ouvi-la, algures, a subir as escadas muito depressa – Então, tens passado bem?

- Sim, obrigado. E a senhora?

- Óptima, como sempre. – e sorriu – Chega a ser irónico: um Malfoy e uma Potter. – Scorpius coçou a cabeça, ligeiramente constrangido – Já consigo imaginar os almoços em família. – começou a rir e o loiro acabou por gargalhar também ao imaginar a cena. Draco Malfoy e Harry Potter sentados calmamente na mesma mesa. E ainda havia o Weasley, e a Granger… Os seus filhos.

Fantástico.

Depois o silêncio instalou-se; Ginny arrumava alguns pratos enquanto o rapaz travava uma batalha interna.

Quando finalmente se decidiu, pigarreou para chamar a atenção da mulher à sua frente.

- Sim? – fitou-o.

- Eu só queria que soubesse… - mordeu o lábio inferior – Que a magia está em nós. – a ruiva petrificou fazendo com que ele se arrependesse momentaneamente por ter dito aquilo.

- Ele contou-te?

- Eu descobri.

- Bem… - voltou a arrumar os pratos, ainda que a sua voz não fosse tão firme quanto antes – Suponho que a magia será eterna.

- É. – e ambos sorriram.

xx

Ginevra viu Lily e Scorpius saírem de mão dada e a trocarem um beijo apaixonado. Ela não partira de Draco nem ele dela, tal como Lily não partiria de Scorpius e vice-versa.

FIM


Floo Powder¹ - Pó de Flu.


Agradecimentos muito especiais à Just, a minha beta fiel, que opina magnificamente. Thanks, dear!