Fic

ANDREA DORIA
por Aline Carneiro


Música Andrea Doria, Legião Urbana.

Ship: - | Classificação: G | Gênero: SongFic/Geral | Spoilers: 4 | Capítulos: 1 | Status: Completa | Idioma: Português | Observação: - | Publicada em: 01/07/2007 | Atualizada em: 01/07/2007

Disclaimer: Alguns personagens, lugares e citações pertencem a J.K. Rowling, Scholastic Books, Bloomsbury Publishing, Editora Rocco ou Warner Bros. Entertainment. Essa estória não possui fins lucrativos.




N/A: Dizem que quando se conta uma história sempre se fala apenas o lado dos bons, dos heróis... será que os vilões também tem uma história para contar? Eu sempre quis olhar a história pelos desprezíveis olhos de rato de Pedro Pettigrew, pensando porque ele afinal entregou seus melhores amigos... ele também perdeu, ninguém deve se enganar quanto a isso. Andrea Doria é o nome de um navio que afundou... essa é a história do naufrágio de uma vida.


As vezes parecia que, de tanto acreditar

Em tudo que achávamos tão certo,

O rato farejou algo suspeito no beco e encolheu-se até o fundo, para a parte mais escura, entrando em uma fenda estreita... seus olhinhos miúdos viram a silhueta de um cão negro, e ele sentiu até o último fio de seus pelos se arrepiar... ele podia estar sendo farejado. O cão então seguiu adiante atrás de alguma lata para virar, e ele sentiu-se aliviado. Não era Sirius... Sirius continuava preso... ele teoricamente estava seguro. Pelo menos até os seus outros companheiros descobrirem seu paradeiro.

Ele se arrependera do que fizera no instante em que fizera... agora, se via na pele que achava realmente merecer: a pele de um rato... ele nunca fora um homem. Mas não se cansava de lembrar dos anos em que os amigos o faziam acreditar que ele era confiável... eles o tratavam como um igual.

Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais:

Faríamos floresta do deserto

E diamantes de pedaços de vidro.

Ele nunca tinha sido bom em transfiguração, ou em poções, nem mesmo fora um exímio piloto de vassoura, nada sabia sobre astromancia, e sua visão de futuro podia ser classificada como pífia. A verdade que não tinha quase nenhum talento... quase. Pedro sabia apenas que era um bom ouvinte. E sempre ouvira o que Sirius, Remo e Tiago tinham a dizer, e quando não tinha nada melhor para falar em resposta, simplesmente concordava, apoiava... fora assim que entrara para a turma, sendo “o cara confiável”.

E não eram apenas eles que confiavam seus segredos a ele... Lílian, a única garota que ele gostava, ela adorava conversar longas horas com ele, na sala comunal da Grifnória, ela falava mais, ele ouvia tudo, bebendo cada palavra... e fora assim que se apaixonara por ela.

Mas percebo agora

Que o teu sorriso

Vem diferente,

Quase parecendo te ferir.

- Pedro, você sabe que eu confio em você mais que em ninguém... você me faria um favor?

- Claro Lílian, você pode me pedir o que quiser...

- Então... eu não sei como pedir

O coração dele acelerou... o baile estava chegando e por um instante, um glorioso instante, acreditou que Lílian queria ir com ele.

- Pode pedir, Lílian...

- Sabe se o Tiago já tem par? Você faria que ele me pedisse?

Sim... o frágil castelo que ele construíra para os dois tinha um intruso, e esse intruso era seu melhor amigo.

- Claro, Lílian, eu dou um jeito.

Ele deu um jeito, sem saber porque, disse a Tiago que Lílian ficaria feliz em ir ao baile com ele... o sorriso largo de Tiago, iluminando o rosto de dezessete anos, o rosto altivo do seu amigo favorito, do sujeito que ele mais admirava no mundo, aquele sorriso não deixava dúvida... ele perderia a parada, ela jamais ficaria com Pedro, o fraco, Pedro, o sem talento, Pedro, o nada... ela tinha Tiago Potter, monitor chefe. O que mais poderia querer?

Não queria te ver assim

Quero a tua força como era antes.

As recordações eram dolorosas... Pedro correu no escuro pela fenda, queria que a sua dor não o alcançasse em lugar nenhum... mas para onde corresse, onde estivesse, seu crime o seguiria. Ele corria e corria para longe, mas quanto mais longe da cena do crime ele ia, mais vivas eram as suas recordações.

O que tens é só teu

E de nada vale fugir

E não sentir mais nada.

- Alegria Pedro! - a cara já ligeiramente embriagada de Sirius apareceu na sua frente. Sirius era o bonitão, o que sempre fizera as piadas mais cruéis com ele... - Bota um sorriso nessa cara feia... amanhã é o casamento do Tiago, hoje a gente pode encher a cara, a nossa, e principalmente, a dele.

- Você sabe que eu quase não bebo, Sirius...

- Mas se até o Remo hoje está a fim de encher o pote, Pedro, ele é o cdf, não você... qual é, Rabicho... você nunca relaxa?

- Alguém tem que ficar sóbrio para levar o Tiago para casa.

- Isso aí, amigão - Tiago levantou a cabeça com um sorriso bêbado e estúpido, e ele pela primeira vez o odiou... Um bêbado, Lílian estava trocando-o por um bêbado. Tiago sorriu - o que seria de mim sem você Pedro?

- Nada... não esqueça que eu que te falei que ela queria ir ao baile contigo... - Remo, até então calado, deu uma sonora gargalhada:

- Olha só o baixote! Ah, cara, eles são feitos um para o outro... teriam ficado juntos mesmo se você tivesse dito que ela a achava parecida com um trasgo!

Naquele dia, pela primeira vez ele odiou a companhia dos amigos... Tiago merecia Lílian, Tiago e Lílian seriam felizes... Ele achava que no fundo Tiago era como os outros dois, irresponsável e egoísta. Eles nunca haviam perguntado realmente a sua opinião para nada... ele sempre fora amigo deles... mas ganhara algo em troca?

Ás vezes parecia que era só improvisar

E o mundo então seria um livro aberto,

Nenhum deles parecia temer as forças das trevas... insensatos, ele achava, não viam o que estava acontecendo. Qualquer um podia ser pego... qualquer um. Sirius era o mais arrogante, dizia que mataria qualquer um que tentasse por as mãos nele... dizia que jamais se renderia, não se entregaria sem luta.

Então, aconteceu. Alguém alcançou um deles, e não foi Tiago ou Sirius... ele foi o escolhido. Ele tentou fugir, mas a bruxa era rápida... ela o cercou num lugar como aqueles que ele agora frequentava... um beco. Ele não sentiu-se constrangido em implorar pela sua vida.

- Por favor! Não me mate, me poupe!

- Quem disse que o mestre te quer morto, Pedro Pettigrew... você tem algo que pode ser útil a ele... e ele pode te dar muita coisa em troca...

- Eu...

- Venha comigo, Pedro, Lord Voldemort não é tão cruel como dizem... ele pode ser bem generoso com quem souber ser generoso com ele...

E ele foi... podia ter lutado, como Sirius dizia que faria, mas sabia que não teria chance... ele não queria morrer... ele não era Sirius... achava que era sensato... nada demais havia em ouvir, havia? Ele ainda podia dizer não...

Até chegar o dia em que tentamos ter demais,

Vendendo fácil o que não tinha preço.

- É a mulher, não é, Pedro... você a quer - a voz de Lord Voldemort, oculto nas sombras, chegava suave aos seus ouvidos, sem um vestígio da tão propalada crueldade. Ele tentava ver-lhe o rosto, mas era impossível.

- E-eu... você... o senhor... está falando de...

- Lílian Potter... ela poderia ser Lílian Pettigrew, não é? Você queria ter se casado com ela, não é?

Sim. Ele sabia, aquele homem sabia mais sobre Pedro que os sujeitos que se diziam seus melhores amigos! Agora ele tinha alguém que realmente se importava com ele.

- Eu peço muito pouco, Pedro... muito pouco... me entregue Tiago Potter, é ele que eu quero, não a mulher... ela eu posso dar a você.

- Mas... Senhor... M-Mestre - mesmo na sombra, ele percebeu que o Lord das trevas sorria - Eu não sou próximo deles o suficiente, Sirius é que está sempre com eles, nem sei direito por onde eles andam... e Lílian está grávida.

- Grávida?

- É... - ele disse timidamente vendo que aquilo pertubara visivelmente o ser oculto nas sombras.

- Então é necessário esperar... até que a criança nasça, então... matar os dois, pai e filho.

- Matar?

- Você quer a mulher?

- Sim...

- Então, esteja por perto, seja presente, seja a sombra desta família... e quando chegar a hora... entregue-me Tiago Potter e ela será só sua. Aceita? - o dilema estava se formando na sua cabeça quando Voldemort saiu das sombras para a luz. Ele reprimiu um grito. Não era um homem... não era um bruxo. Era um monstro.

- Não se atreva a me dizer não, Pedro Pettigrew, homens mais fortes e mais valorosos que você foram mortos por mim muito facilmente... não duvide da extensão do meu poder... nem pense em me decepcionar, em dizer não para mim.- ele estava apavorado... ele não tinha outra saída, e disse sim.

Eu sei - é tudo sem sentido.

E foi assim... Lílian e Tiago confiaram nele, e comemoraram a sua reaproximação ao grupo... ele descobriu que tinha mais um talento, sabia mentir com facilidade, enganar, semear intrigas... dizer coisas sem dizer, fazer nascer entre Sirius e Remo tal desconfiança que surgiu uma frieza entre os dois que até Tiago estranhou... e ninguém conseguia perceber a origem daquela desconfiança.

Por outro lado, Sirius agora confiava mais que nunca nele... era bom, porque os malditos espiões de Dumbledore haviam descoberto que Tiago era um alvo... ele não sabia se dariam certo suas insinuações para Sirius que ele seria visado, que os comensais com certeza iriam até ele, sabendo que ele era o melhor amigo de Tiago... quase não acreditou quando Sirius disse que ele teria a tarefa... faltava agora tão pouco... ele não pensava em Tiago, nem no pequeno Harry...

- Mestre... eu sei onde eles estão.

Ele não pôde acompanhar o mestre, que ordenou que ele ficasse... foi nessa hora que o traidor percebeu que também fora traído.

Quero ter alguém com quem conversar,

Alguém que depois não use o que eu disse

Contra mim.

Culpa... cada dia que vivesse, cada passo que desse seria manchado de vergonha, melhor ser para sempre um rato...

- O que é isso, Percy?

- Um rato, eu achei... ele é engraçado, acho que deve ser um rato mágico, vou ficar com ele para mim...

- Mágico? - o garoto crescido de cabelos grandes e vermelhos olhou para ele como quem olha o rato menos mágico do mundo - Acho que mamãe não vai gostar dele...

- Gui, eu não tenho bicho de estimação e esse é meu primeiro ano em Hogwarts... eu não quero chegar lá de mãos vazias...

- Então... leve seu rato perebento...

- É, ele é meio perebento mesmo... bom nome para ele: Perebas!

- Notou que ele não tem um dedo na pata?

- E daí? Ele vai ser meu assim mesmo.

Seria bom estar entre garotos... aquilo o faria esquecer.

Nada mais vai me ferir.

É que eu já me acostumei

Com a estrada errada que segui

E com a minha própria lei.

Quando tudo deu errado, ele soube... era preciso fugir, ele sabia distinguir rumores, e sabia que agora que o mestre caíra, ele estava em perigo, poucos sabiam que ele fazia parte do grupo... mas os que sabiam viriam atrás dele... E havia Sirius.

- Pedro, Pedro... você viu? O mestre das trevas, ele foi derrotado por um garotinho...

Ele nunca vira tantos bruxos eufóricos... quase ninguém falava de Lílian e Tiago... foi por Sirius que ele soube.

- Onde você pensa que vai, Rabicho?

- S-Sirius? Eu ia procurar você...

- Canalha... mentiroso. Você me enganou... você matou Lílian e Tiago.

- Mas... eu...

- NÃO GAGUEJA! FALA, DESGRAÇADO, PORQUE VOCÊ FEZ ISSO?

- Eu... não tive... escolha - enquanto falava, Pedro observava a rua em volta... testemunhas, nenhuma delas bruxa... se ele pudesse fugir... havia um bueiro, ele podia ver, se acreditassem que Sirius era culpado por tudo... ele podia tentar algo, aprendera muito com os comensais... aprendera a provocar danos com muita facilidade, e a mentira era fácil de ser dita - SIRIUS - ele ouviu sua própria voz gritando - COMO VOCÊ PODE, LÍLIAN E TIAGO, VOCÊ OS MATOU - Os trouxas olharam para ele e Sirius, ele viu o espanto nos olhos de Sirius - EU NÃO POSSO ACREDITAR, SIRIUS... VOCÊ NÃO TEM VERGONHA? - Sirius ergueu a varinha, depois do primeiro instante de perplexidade, e pela primeira vez em anos, ele foi mais rápido - DETRITERIO! - ele gritou, e uma enorme bola de fogo espalhou-se a partir de onde ele estava... Sirius tinha bons reflexos e se defendeu... mas não evitou que aqueles que estavam em volta fossem varridos. Quando Pedro pulou no bueiro, sentiu seu frágil dedo de rato se quebrando, e ignorando a dor, fez com que ele se partisse e ficasse para trás. Assim que soltou-se de seu corpo, o dedo adquiriu a forma de um dedo humano novamente.

Rato, rato, rato.... ele agora era um rato com instinto de rato, e conforme corria por dentro das tubulações, ouvia a gargalhada louca que alguém dava do lado de fora...

Tenho o que ficou...

O tempo passou... ele sempre soube que não estaria nunca mais livre, onde quer que estivesse, a sombra de seu crime pairaria para sempre sobre a sua cabeça... ele só não olhava para ela, mas sabia que ela estava lá, a culpa, maior que ele, maior que o mundo.

Podia escapar quantas vezes fosse, ele sabia que um dia seria julgado e punido...

Talvez pelas mãos da vingança, mas ele escapara uma vez de Sirius e Remo, justamente porque tivera um dia amigos de coração nobre

Talvez pelas mãos da culpa, mas o mestre parecia precisar dele... enquanto fosse necessário ao mestre não precisava temê-lo.

E tenho sorte até demais,

Como sei que tens também

Mas havia alguém que ele devia temer... ele o encarara duas vezes e vira... era o rosto de Tiago sobre o rosto de Lílian, era a face de seu crime que ele vira de perto duas vezes... Ele sabia que podia escapar quanto quisesse, mas quando tivesse que enfrentá-lo, perderia. Não conseguiria fugir, quando fosse alcançado pelas mãos da Justiça. Um dia, Harry Potter o julgaria, mas ele mesmo já se condenara, no dia que traíra seus melhores amigos... no dia que traíra seu único amor. O menino sobrevivera para um dia fazer as mãos da justiça o alcaçarem... Esse dia chegaria, e quem sabe, o fim de seus crimes trouxesse a ele o alívio que a covardia nunca trouxera.

Rato... no fundo, ele seria para sempre um rato.

FIM