Fic

AS SACERDOTISAS DO AMOR
por Amanda Izidoro


Duas jovens pagãs cultuam a Grande Deusa na Bretanha do século XIII. A Santa Inquisição já ameaça a tranqüilidade dos cultos e entre os temores de uma caça às bruxas as jovens descobrem um amor além do medo, que as faz ter forças para viver e encarar com coragem o destino incerto traçado pelos deuses.

Ship: Hermione Granger e Luna Lovegood | Classificação: Slash | Gênero: ShortFic | Spoilers: 1 | Capítulos: 1 | Status: Completa | Idioma: Português | Observação: Universo Alternativo | Publicada em: 01/07/2007 | Atualizada em: 01/07/2007

Disclaimer: Alguns personagens, lugares e citações pertencem a J.K. Rowling, Scholastic Books, Bloomsbury Publishing, Editora Rocco ou Warner Bros. Entertainment. Essa estória não possui fins lucrativos.




A ascensão do cristianismo sobre a Europa ocidental massacrava visivelmente as religiões pagãs. Inflamados pelo ouro oferecido por Roma, os convertidos à religião do Deus Único guerreavam em busca de novos territórios para o Santo Papa e para a causa de Deus. Em outras palavras, mais territórios significariam mais impostos e mais riquezas.

Num ímpeto de banir qualquer ameaça à supremacia cristã, os grandes padres de Roma se reuniram em conselho. Foram duas semanas de discussões inflamadas que resultaram na maior chacina que a história do mundo veria em séculos e séculos.

No dia 20 de abril de 1233 o Papa Gregório edita a bula “Licet ad capiendos”, marcando o início da Santa Inquisição. A bula era dirigida aos dominicanos e aos membros da Igreja intitulados inquisidores e dizia sobre o paganismo:

“Onde quer que os ocorra pregar estais facultados, se os pecadores persistem em defender a heresia apesar das advertências, a privar-los para sempre de seus benefícios espirituais e proceder contra eles e todos os outros, sem apelação, solicitando em caso necessário a ajuda das autoridades seculares e vencendo sua oposição, se isto for necessário, por meio de censuras eclesiásticas inapeláveis”

As tais censuras eclesiásticas inapeláveis nada mais eram do que as torturas e execuções praticadas sem limites. Muitos inquisidores se utilizavam da autoridade concedida pelo Papa para se livrarem de inimigos políticos, rivais e inimigos em geral.

Assim, a França se via sob um manto de medo e opressão. E logo toda a Europa também seria coberta por este frio e injusto manto.

A Inglaterra era um dos poucos países que ainda não fora afetado pela epidemia cristã, espalhada junto com o medo das fogueiras de execução. Talvez o mar, que separava o país do resto do continente, ainda servisse para reter as investidas dos católicos fervorosos e intolerantes.

Ao norte, onde mais se cultuava a fé na Deusa Mãe e no Deus Cornudo, encontrava-se a maior concentração de sacerdotes e sacerdotisas, todos verdadeiramente dedicados ao estudo dos mistérios da natureza.

Nas Terras de Ravenclaw, as jovens eram instruídas pela própria sacerdotisa Rowena e contavam com as predições de Helga para a iniciação nos mistérios da Grande Mãe. Enquanto do outro lado do vale, sob o domínio de Gryffindor, os druidas Godrico e Salazar preparavam os bravos rapazes que serviriam ao Deus Cornudo em seus místicos rituais.

O ano de 1245 chegou com o desembarque dos Grandes Inquisidores na Bretanha. Mas o povo do norte, tão concentrado em suas atividades pagãs, não se importava com as notícias vindas do litoral. Ainda não conheciam o poder dos cristãos, que se diziam inspirados pelo Deus Uno para proceder com todos os tipos de atrocidades contra os seres humanos que não concordassem com suas idéias.

Ali, entre as meninas de Rowena, vivia uma jovem de nome Hermione. Típica filha de camponeses, exibia seus 15 anos nos longos cabelos castanhos que desciam em cachos até a cintura bem feita.

Naquele dia de equinócio, quando o outono finalmente se abriu em frutos, a jovem estava particularmente quieta e introspectiva.

Fazia quatro anos que chegara até às Terras de Ravenclaw. E desde então não viu mais nenhum dos parentes. Nem mãe, nem pai, nem os irmãos, que a esta altura já deviam estar crescidos.

Ainda criança, Hermione entendeu que não lhe seria permitido viver em família. Seus dons para entender os desígnios da Deusa Mãe, para reconhecer as plantas que trazem na seiva a benção da cura e o conhecimento intuitivo para compreender os símbolos sagrados foram os sinais que a marcaram como uma legítima Sacerdotisa da Deusa desde o seu nascimento.

A mãe biológica, com profundo pesar, despediu-se da filha quando esta completou 11 anos. Sabia que não seria justo privar a menina da dádiva recebida dos céus.

Ela foi carinhosamente acolhida por Rowena, a Sacerdotisa Suprema, que ficou encantada em receber uma jovem tão inteligente e sobre a qual já ouvira tantos elogios.

Desde que chegara, Hermione não teve tempo de sentir saudades de casa. Aliás, sua casa agora era ali, entre as outras jovens com quem compartilhava as refeições, as tardes de estudo e as tarefas no pomar e na tecelagem.

Nesse tempo, aprendeu a ler as estrelas, as runas e as sementes da aveleira. Mas aprendeu, principalmente, a se perceber como mulher.

Rowena lhes explicava que o corpo feminino era o recipiente onde a Deusa e o Deus depositavam as novas almas que surgiam na terra. Levava as jovens para se banharem no rio e as incentivava para que cada uma descobrisse e explorasse o seu próprio corpo.

Tal aula era fundamental para que, quando chegasse o momento do encontro com os Filhos do Deus Cornudo, as jovens estivessem preparadas para recebê-los como deviam.

O encontro acontecia sempre no solstício de inverno. Nessa data, uma jovem era entregue para o Ritual de Concepção. Os rapazes corriam pela floresta a fim de caçar um cervo. O vencedor da disputa teria a donzela e a possuiria diante de todos, antes de levá-la para a caverna, onde uma cama serviria de altar para a continuação do ritual. Eles ainda precisavam se envolver mais três vezes para que o ritual fosse finalizado.

Cada detalhe passava pela mente de Hermione, enquanto ela se deixava descansar à sombra de uma macieira.

- Quatro anos – suspirou a jovem. – Quatro anos achando que não seria eu...

Há três meses, Helga, a Grande Vidente, previu que a próxima donzela deveria ser aquela que se tornaria mulher no equinócio de outono.

A mancha de sangue nos lençóis que cobriam o leito de Hermione aquela manhã indicaram que ela era a escolhida. Ela representaria a face Virgem da Deusa no Ritual de Concepção.

A notícia se espalhou logo e a jovem se tornou o centro das atenções, sendo levada para que tomasse um banho especial e para que fizesse suas refeições à guisa de sossego.

Desde então, permanecia ainda mais solitária do que já costumava ser. Certo dia, conseguiu uma permissão especial para caminhar pelo pomar, e aproveitou o momento para curtir o imenso vazio que se formou em seu peito.

- Há tristeza em tua aura – disse uma voz aérea atrás de si.

- É tu, Luna? – perguntou, mesmo tendo reconhecido a voz.

- Sabes bem que sou eu – respondeu a moça saindo de trás de uma árvore.

A jovem em questão era uma das moças que viviam nas Terras de Ravenclaw. Chegou ali um ano depois de Hermione. Miúda, a pele branca, os lábios rosados e os cabelos tão claros quanto a luz da Lua Cheia. Os olhos eram mais azuis que o céu de um dia sem nuvens.

Tinha o dom de enxergar a verdade mesmo que esta estivesse bem escondida sob o manto de muitas mentiras. E não se incomodava em dizer o que via. Sua franqueza aguda causava constrangimento nas demais moças e apenas Rowena e Helga davam sinais de admirar os dotes da garota.

- Não gostastes de ser a escolhida pela profecia – sentenciou Luna olhando diretamente para os olhos de Hermione.

- Por que dizes isso?

- Pela falta de brilho da tua aura. Sempre a vi tão luminosa e hoje noto que está levemente apagada.

A morena abaixou a cabeça. De nada adiantaria mentir. Não para Luna.

- Qual a razão do teu descontentamento? Enquanto todas as outras lamentam por não estar no teu lugar... – ajuntou a loira.

- Não sei se poderia me fazer entender – começou Hermione.

- Tente. Mal não há... Se não conseguires, eu continuarei do mesmo jeito que estou, sem saber o que se passa em teu coração.

- Não é que eu não queira, só não me sinto preparada! – justificou-se a eleita – Não saberei o que fazer!

- Como pode ser isso? Nascemos para servir nossa Mãe. Fomos preparadas desde o início. E ajudamos nas últimas celebrações, você esteve na caverna comigo quando Fleur foi entregue em ritual.

- Eu sei, mas só vi o que acontecia na caverna e depois me retirei de lá...

- Então, não viste o que acontece nas pedras?

A morena balançou a cabeça em sinal negativo, corando vivamente.

- Oras, deixa disso! Não tem porque te envergonhares.

- Agora você compreende o que sinto?

- O que você sente é apenas medo! – disse a loira ficando de pé. – Venha comigo...

- Para onde?

- Venha! Vou fazer o possível para que se sinta segura e preparada. Confie em mim!

Ela estendeu uma mão para a jovem, que a segurou ainda temerosa. Puxou-a de baixo da macieira e foi com ela até o rio. Chegaram à margem onde, ignorando o vento da tarde que já se aproximava, Luna se despiu e entrou na água.

- Tira tuas vestes e venha até aqui – chamou com um tom de voz mais imperativo que o comum.

Hermione não cogitou negar o convite e rapidamente, se livrou do longo traje que ganhara naquela manhã. As roupas novas eram o símbolo da escolha, que ela prontamente abandonaria se tivesse opção, tal como o fazia com as vestes. Caminhou até o rio e entrou devagar. Estava acostumada a se banhar ali mesmo no mais rigoroso inverno. No entanto, aquele dia, a água lhe provocou mais arrepios.

Luna indicou um amontoado de pedras que fazia com que a água ficasse rasa e pediu a Hermione que se deitasse ali. Quando a morena obedeceu, Luna falou novamente:

- Eu já observei muitos fazendo o que esperam de você no Ritual. E acredite quando digo que não será uma tarefa desagradável.

A morena suspirava, sentindo o coração disparar ao imaginar o que a aguardava. A voz de Luna, ali a seu lado, parecia-se com uma canção suave e melodiosa, enquanto ela explicava os mistérios do Ritual.

Hermione não pôde deixar de admirar a jovem que, apesar de ser mais nova, apresentava uma maturidade além do comum diante das coisas da vida.

De repente, uma sensação estranha fez a morena querer se levantar apressada. Mas Luna ordenou-lhe que se acalmasse:

- Aquieta teu coração e deixa-te ser mais receptiva, Hermione. Sou apenas eu te tocando.

A mão da jovem loira agora deslizava, traçando pequenos círculos por todo o corpo da garota. Começou pelo pescoço, reteve-se por mais tempo entre os seios salientes da jovem morena e por fim, alcançaram a parte interna das coxas.

- Esse é o caminho por onde os homens costumam passar. É nesse trajeto que eles esperam conhecer o corpo da mulher. Mas cabe a você, durante o ritual, determinar onde ele pode explorar. É apenas a tua orientação que ele deve obedecer, pois esta será também a vontade da Grande Mãe.

Ela pegou suavemente a mão de Hermione e fez com que ela mesma traçasse os círculos, pelos mesmos lugares nos quais sua mão havia passado antes.

Satisfeita, ela observou a pele de Hermione se arrepiar. Antes que a jovem pudesse controlar a situação, retirou ambas as mãos e falou:

- Por hoje basta! Você já tem muito em que pensar.

- Por hoje... – repetiu a garota – isso significa que vamos voltar aqui?

- Só se você quiser!

- Eu quero – apressou-se em responder.

Com um sorriso discreto, Luna respondeu:

- Então, que fique acertado desde já que nos encontraremos amanhã, ao entardecer, após as tarefas diárias.

Hermione saiu da água, acercou-se de suas vestes e as vestiu ainda com o corpo molhado. Subiu apressada o caminho que levava para sua cabana e mal chegou, já se enfiou na cama, sob os lençóis quente e macios.

Não que o frio a incomodasse, mas queria um lugar tranqüilo para pensar no que acontecera no rio e no quanto aquela experiência mexera com ela. Nunca se emocionou daquele jeito, nunca sentiu as pernas falharem e nunca imaginou que seu corpo poderia ter sede, não de água, mas de um outro corpo colado ao seu.

O dia seguinte surgiu com a ansiosa perspectiva de um novo encontro. Durante o dia, Hermione esforçou-se por fazer suas tarefas normalmente e para atender a tudo que lhe era solicitado.

Quando, por fim, a tarde caiu, ela dispensou a refeição frugal e se precipitou para além do pomar, alcançando a trilha que levava até o rio. Luna já estava lá, dentro da água, e poderia passar por adormecida, se suas mãos não revelassem que ela brincava com uma flor. De olhos fechados, acariciava um lírio que insistira em se abrir fora de hora.

A loira foi despertada pela aproximação de Hermione. Então lançou um olhar de contentamento para a morena quando a viu se aproximar, já despida. Foram para as mesmas pedras do dia anterior, mas desta vez, por mais que o corpo de Hermione desejasse, as mãos de Luna não a tocaram uma única vez.

No lugar das mãos, Luna usou as pétalas da flor para acariciar o corpo da jovem que se tornara sua aluna na descoberta da sensibilidade natural do ser humano. A cada carícia, explicava que existiam diversas formas de se obter prazer, mas que a principal estava dentro de si. Era preciso libertar cada pedaço do corpo para que as sensações fluíssem.

- Feche os olhos, respire profundamente e apenas sinta, como se não existisse mais nada a ser feito no mundo. Imagine que sua tarefa nessa vida é unicamente sentir prazer – sussurrava a loira com a voz doce e cálida.

Ela se posicionou aos pés da morena e começou a deslizar o lírio pela sola dos pés da outra. Demorou-se propositalmente nos tornozelos e depois, pedindo num murmúrio quase inaudível que ela dobrasse suavemente as pernas, explorou as dobras dos joelhos.

Vendo a receptividade da morena, ousou subir lentamente até a virilha. Onde parou e encerrou o encontro daquela tarde.

Com o coração ainda mais descompassado, Hermione esperou a aula seguinte e as outras com incontrolável ansiedade. A cada encontro, ela sentia-se mais senhora das emoções, apesar de admitir intimamente que Luna tinha o dom de tirar-lhe a concentração e o que de racional havia nela.

Conhecera naquele tempo tudo o que havia para saber sobre seu corpo. Quais pontos lhe causavam os maiores arrepios, poderia até enumerar os muitos recônditos de prazer onde gostava de ser tocada.

Em algumas ocasiões, era instigada a reverter o processo, aprendendo a explorar o corpo da outra com as mãos, com flores, com os longos cabelos e por fim, com a boca. Aprendera a utilizar os lábios não só para alimentar o corpo, mas também para alimentar a alma de prazer.

Descobriu que ver o outro em total regozijo por suas carícias era tão prazeroso quanto se regozijar com as sensações provocadas em sua pele. O que ela mais gostava era de brincar com os cabelos longos e cacheados, passando-os por sobre o ventre de sua mestra enquanto tateava suas ancas com a língua e com os lábios.

Enquanto Hermione descobria a si mesma, a Bretanha era devastada pela intolerância cristã. A Inquisição ganhava força entre os nobres e logo, o império saxão se via forçado a tomar partido.

Quando o Rei Henrique III se mostrou favorável ao pensamento francês que dera início à Inquisição, os praticantes do culto à Deusa e ao Deus natural começaram a se preocupar. Há exatos 800 anos eles viveram o mesmo tormento, quando Arthur negou suas origens pagãs e se assumiu cristão. Sua esposa, a Rainha Guinevere, fê-lo se converter e traçar verdadeira campanha contra os pagãos. Arthur negou as origens e a própria participação anterior nos rituais para se submeter à repressão do Deus cristão.

Rowena se via agora temerosa de ter que tomar a mesma atitude que suas antepassadas repudiaram: separar as terras daqueles que conheciam a magia das terras das pessoas comuns. Os camponeses eram simples e humildes, e por isso naturalmente manipuláveis. O que representava um perigo para as jovens vidas que ficavam sob sua responsabilidade.

Quando Avalon foi retirada do convívio dos que ignoravam a magia por completo, os mesmo camponeses que buscavam auxílio entre as sacerdotisas e conselhos entre os sacerdotes foram os primeiros a lhes apontar as foices e ameaçar a vida.

As represálias ao culto pagão começaram a se intensificar, e embora quase não se visse estrangeiros pelas terras do norte castigadas pelo frio constante, o cuidado com a segurança dos jovens e dos adultos que se dedicavam a cultura do princípio da dualidade divina aumentou.

Antes de o sol deixar por completo o céu, todos eram obrigados a se recolher. Os ritos de adoração à deusa agora eram realizados no interior de uma cabana sem teto, para proteger as sacerdotisas de olhares curiosos.

Assim, os encontros de Hermione e Luna foram suspensos. E enquanto muitas das moças que viviam naquelas terras se enraiveciam da situação, Hermione agradecia à deusa. Ela sabia que apesar de não ter mais as mãos delicadas da loira percorrendo seu corpo, agora lhe era possível descobrir um novo sentimento: saudade.

Faltava apenas duas noites para o solstício de inverno. E apesar do tempo sombrio que se abatia sobre a Bretanha, as sacerdotisas se puseram a preparar o Ritual. Rowena ouvira uma predição de Helga que, durante o sono induzido pelo vinho sagrado, descobriu que aquele seria o último Ritual de Concepção das Terras de Ravenclaw. E ela, Rowena, faria o impossível para que fosse realizado com afinco e capricho.

As jovens foram dispensadas para que se preparassem para os ritos. Algumas cuidavam das vestes ritualísticas da Donzela, enquanto outras cuidavam de sua alimentação e mais algumas lhe preparavam os adornos que deveria exibir ao Caçador.

Luna aproveitou o excesso de atividades das moças e retirou Hermione da cabana por alguns instantes.

- Hoje não te levarei para o rio. Seria uma insanidade deixar teu belo corpo na água gelada. Venha! Vamos para o pomar...

As duas alcançaram a macieira onde a conversa que dera origem àquelas aulas foi travada. Luna abriu um longo manto sobre o chão gelado. Mais alguns dias e aquele solo seria coberto pela neve. Mas no momento, ainda era possível avistar as folhas que despencavam das árvores.

Chamou Hermione para que se sentasse a seu lado e indagou:

- Perdeu o medo, minha donzela?

- Não só perdi o medo como ganhei muitos outros sentimentos que preencheram minha alma – respondeu carinhosa, segurando as mãos da loira entre as suas.

- Preparada para a última lição?

A palavra última lhe causou uma pontada no coração, mas ela disfarçou o pesar e assentiu com um gesto rápido.

- O que vai me ensinar?

- Vou ensiná-la a se fazer feliz... – respondeu suavemente enquanto conduzia a outra a deitar a cabeça em seu colo.

Desamarrou a gola das vestes de Hermione e deixou os seios da jovem a mostra. Pegou-lhe a mão como sempre fazia, colocou sobre o decote e indicou:

- Faça sozinha, desta vez!

Hermione abriu os olhos, espantada. Nunca Luna lhe deixara fazer tudo sozinha. Sempre a ajudava. Sentiu-se insegura, mas não queria decepcioná-la.

Enquanto uma das mãos descia sobre a própria blusa, a outra procurou as coxas da loira, que a tirou suavemente dizendo:

- Não, querida, hoje o momento é só seu...

A garota de cabelos castanhos entendeu o que significava a expressão “se fazer feliz” e, fechando novamente os olhos, se tocou, em cada um dos lugares que mais gostava, com a intensidade que achava ideal, com a freqüência que mais lhe causava arrepios. Quando se deixou descansar ainda deitada no colo da loira, percebeu que agora poderia enfrentar o ritual sem problemas.

No dia do Ritual de Concepção, Hermione foi levada para a cabana de Rowena, onde um grupo de jovens a esperava. Entre elas, a morena reconheceu sua mestra e as inquietações que insistiam em permanecer em seu coração desapareceram.

Ali, ela foi banhada em água morna, perfumada com pétalas de flores secas. Alimentou-se de frutas e sementes e foi vestida com uma túnica branca. Os pés descalços e a cabeça coberta por um fino véu, ela saiu da cabana e se dirigiu para a caverna, onde deveria aguardar por seu Caçador.

O local estava preparado com uma cama feita de palha, coberta por linho cru. As paredes eram pintadas com símbolos místicos e a iluminação ficava por conta de dois archotes que seriam acesos antes do casal entrar.

Ela permaneceria no escuro até que o toque da corneta anunciasse a chegada do vencedor. Enquanto esperava, seria preparada pelas jovens que a acompanharam no trajeto da cabana até ali.

As jovens deveriam deixá-la à vontade para que o momento da união diante dos demais fosse facilitado. Elas se desprendiam em carícias e toques, mas Hermione não sentia nada. A única mão que fazia sua pele reagir era aquela que já conhecia e apreciava.

Quando a corneta soou a primeira vez, horas depois, o coração de Hermione voltou a disparar. O momento para o qual ela se preparou todos aqueles dias estava a poucos segundos de acontecer.

As jovens a deixaram sozinha na caverna. Antes de sair, Luna deu-lhe um suave beijo nos lábios e murmurou em seu ouvido:

- Boa sorte!

O segundo toque se fez ouvir e ela deixou a caverna com passos lentos, porém decididos. Junto às pedras do altar principal estavam Rowena e Helga. Elas se acercaram da jovem e lhe deram vinho de frutas, enquanto adornavam sua cabeça com uma coroa de flores delicadas que sempre resistiam ao inverno rigoroso, como se a Deusa as tivesse criado para aquele fim.

Ela não pode avistar de imediato o seu Caçador. Ele estava cercado pelos companheiros e pelos Grandes Druidas Godrico e Salazar, que o preparavam para o momento máximo do ritual.

O terceiro toque da corneta cortou o ar e os demais se afastaram, deixando que os jovens se vissem. Hermione sentiu que o tempo parara quando avistou o belo rapaz. O jovem valoroso que ganhou o direito de representar o Deus naquele ritual tinha apenas 15 anos e atendia pelo nome de Ronald.

Era um rapaz alto, de ombros largos. Trajava uma rústica calça de couro e exibia o torso nu, ornado apenas com símbolos rúnicos pintados pelos sacerdotes com o sangue do cervo que ele havia caçado há pouco tempo. Os cabelos eram vermelhos como o horizonte ao pôr-do-sol e o os olhos, de um azul escuro, pareciam refletir as estrelas do céu.

Hermione estremeceu quando notou que ele se aproximava sem hesitação. Os olhos dos dois se encontraram e ela só quebrou o contato visual quando sentiu a mão forte do rapaz envolver sua cintura e puxá-la para um beijo sedento.

Depois disso, tudo perdeu a importância. Ela não notou quando foi deitada sobre as pedras, nem percebeu que as vestes estavam caídas a um lado. Sequer deu atenção aos olhares dos outros que presenciavam a cena com uma adoração mística, rogando aos deuses que as colheitas da terra fossem tão produtivas quanto a relação que ali acontecia.

Sua única sensação foi a de ter as carnes rasgadas com um ímpeto. Havia uma força apaixonada em cada gesto do rapaz. A mesma força que a garota desejara sentir quando foi para o rio com Luna pela primeira vez.

Quando Ronald se levantou, 10 minutos depois, a jovem continuava extasiada e os sacerdotes que os cercavam prorromperam em vivas, dando início à festa.

O ruivo pegou seu prêmio no colo e levou a jovem para a caverna, onde dois ajudantes já acendiam os archotes. Eles saíram e deixaram o jovem casal sob a luz alaranjada do fogo, fechando a entrada da caverna com mantos coloridos.

Deitada na cama de palha, Hermione esperou ansiosa para continuar o ritual. Mas diferente da primeira vez em que fora possuída com uma certa agressividade, desta seu caçador se revelou mais manso e carinhoso.

Beijou-lhe as pontas dos dedos das mãos e levou-as para segurá-lo pelos ombros. Envolveu-a num abraço quente antes de beijar-lhe os lábios com desejo e forçar caminho entre suas pernas.

Alternou o modo de amar entre o voluptuoso e o terno. Entre as investidas rápidas e firmes e os momentos de entrega total, quando ambos sentiam que tinham se tornado um só.

A terceira vez na caverna aconteceu plácida e tranqüila. Não havia mais mistério e um já conhecia o corpo do outro. Eram como o rio que nunca perde o caminho para o mar.

O rio – pensou Hermione – O rio dela e de Luna.

A imagem da jovem loira invadiu seus pensamentos e quando finalmente eles se entregaram ao espasmo maior de prazer, era na jovem amiga que Hermione pensava.

Ronald adormeceu aconchegado nos braços da morena, enquanto esta se sentia feliz e completa.

Ela descobrira o que era o amor. Amava aquele homem de cabelos vermelhos, que agora tinha no rosto o contentamento e a paz de uma criança. Amava-o por ter despertado o que estava adormecido dentro dela. Amava-o porque sabia, como toda Filha da Deusa sabe, que aquela noite ela havia concebido uma criança dele.

Mas amava-o, sobretudo, por ter sido ele que, mesmo sem saber, a fez compreender o seu amor por Luna, a verdadeira dona do seu coração. E foi com essa certeza que ela deixou a caverna e voltou para sua vida normal.

Quando os primeiros sinais da gravidez se fizeram perceber, Hermione foi instruída sobre como deveria proceder. Aprendeu o que poderia comer, as atividades que poderia realizar e como deveria agir quando sentisse as dores do parto se aproximando.

De acordo com a tradição, ela deveria tecer um manto durante a gravidez para enrolar a criança assim que ela viesse ao mundo. O parto aconteceria na beira do rio, para que a jovem alma entrasse em contato com todos os elementos sagrados da natureza.

Ela foi informada que, se a criança que ela carregava fosse um homem, aos dois anos o pai deveria ficar com ela e criá-la sob os preceitos de adoração ao Deus Cornudo. Mas a jovem mãe estava calma. Ela viu em sonho que esperava uma menina, e que assim a criança ficaria com ela.

Comigo e com Luna – pensava feliz.

O quinto mês da gestação chegou sem complicações, até que um estrondo, ao cair da tarde, se fez ouvir por todo o canto das Terras de Ravenclaw. Gritos ecoaram pelo ar e logo as moças puderam avistar que o Monte Griffyndor estava em chamas.

Alguns poucos jovens conseguiram correr até Ravenclaw para avisar que os inquisidores estavam a caminho. Disseram que eles estavam dispostos a prender os homens e queimar as mulheres.

O caos se instaurou no lugar e muitas moças choravam copiosamente. Hermione e Luna, de mãos dadas, temiam apenas pela vida da criança que elas tanto queriam.

Seguindo as ordens de Rowena e Helga, as jovens reuniram seus pertences e se encontraram na cabana central, esperando as últimas palavras da Sacerdotisa Suprema e da Vidente.

- Acalmem-se! – pediu Rowena. – Vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para tirá-las daqui em segurança. Helga e eu usaremos nossa força para fazer a noite cair mais depressa. E junto dela, uma escuridão intensa em que nada poderá ser visto. Então poderemos fugir.

“Eu lhes entrego agora um punhado de sementes de aveleira. Quando a escuridão cair, peçam à deusa que as indique o caminho e joguem as sementes para o alto.”

“E nunca se esqueçam do que aprenderam aqui esses anos todos. Não se esqueçam que a vida foi-lhes dada para fazer o bem, para agir com intensidade e respeito. Não questionem, não condenem, não se percam em lamentações sem fundamento. Apenas vivam! É só o que a Grande Deusa quer de nós!”

Todas as jovens pegaram suas sementes e partiram rumo ao destino que a Grande Mãe lhes traçou dali em diante. Helga deteve Luna pelo braço e com os olhos perdidos de quem tinha uma visão, pediu:

- Não abandone Hermione. A criança que ela carrega tem um destino único. Você é a guardiã das duas.

Com as sementes em mãos, elas ganharam a estrada. Era possível ouvir os cavaleiros que se aproximavam ameaçadores.

Na cabana, Rowena deu as mãos à Helga e ambas oraram:

Ó Grande Deusa

Mãe justa e amorosa

Protege hoje tuas filhas

Cobrindo seus rastros

Com o manto da escuridão

E turvando a vista daqueles que lhes querem mal

Pelo teu bem e de todos os teus ensinamentos

Que assim seja!

As palavras foram atendidas de imediato e uma sombra escura se adensou sobre a Bretanha.

Luna apertou a mão de Hermione como a lhe inspirar confiança. Pegou as sementes e pediu com fé fervorosa:

- Mostra-nos o caminho do destino, ó sementes abençoadas pela Grande Deusa. Mostra-nos onde devemos ir para que possamos cumprir teus desígnios, abençoada Mãe da Terra.

Lançou as sementes para o alto e antes que elas alcançassem o chão, pequenos pontos brilhantes apareceram diante delas. As sementes se transformaram em pequenos vaga-lumes, que guiaram as jovens pela madrugada afora.

Quando o sol surgiu no céu, pondo fim às trevas que salvaram muitas vidas durante a madrugada, elas estavam bem longe de Ravenclaw. E como usavam vestes de camponesas, logo conseguiram abrigo.

As duas insistiram em viajar mais algum tempo e quando Hermione sentiu a barriga pesar, elas se instalaram numa humilde cabana, cedida por um velho muito simpático e sábio, de nome Dumbledore.

O velho se condoeu da estória contada por Luna, que lhe disse que o marido da prima morrera numa batalha contra uns homens que tentavam lhe tomar a pouca terra que possuía. As duas fugiram do lugar com medo que os homens voltassem e estavam na estrada desde então.

A cabana cedida era de pedra e palha, tinha um quarto, uma sala e uma cozinha. Alguns poucos móveis velhos e panelas de ferro. No terreno, Luna tratou de plantar verduras e legumes e conseguiu duas ou três galinhas para criar.

Hermione ganhou uma velha roca de uma vizinha e se dedicou a trabalhar como tecelã. As duas viviam uma vida tranqüila, amando-se com discrição.

Na primeira semana de outubro de 1246, Hermione sentiu dores e soube que o momento de ter sua filha havia chegado. Queria fazê-lo como as sacerdotisas ensinaram, mas teve medo de chamar atenção e atrair a curiosidade do povo sobre suas vidas. Ela teve que aceitar a presença de uma parteira para ajudá-la no procedimento relativamente fácil.

A criança nasceu durante o crepúsculo. Era uma menina forte e de choro vigoroso, que logo anunciou para toda vizinhança que havia mais uma pequena vida entre eles.

Mesmo a contragosto, Hermione aceitou batizar a menina e chamou Luna para madrinha e o velho Dumbledore para padrinho. Reunidos na pequena igreja do vilarejo, o padre entregou a criança ao padrinho e perguntou-lhe:

- Sob qual nome essa pequena será reconhecida aos olhos dos homens e de Deus?

Era costume que o pai ou o avô escolhesse o nome dos bebês. Na ausência de homens na família, o padrinho era a pessoa indicada para a tarefa.

Dumbledore encarou o bebê aninhado em seus braços. Havia um quê de melancólico nos olhinhos infantis. Por fim, ele declarou:

- Seu nome será Mérope, pois ela dará um fruto que mudará o destino do seu povo.

Hermione lançou um olhar comovido à companheira. Estavam felizes! E continuariam felizes por muito tempo, sem imaginar que as palavras de Dumbledore eram, na verdade, uma profecia.

FIM