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Capítulo 2

Ser um idiota não é trabalho para qualquer um. Ser um idiota assumido, muito menos. Sirius era uma daquelas poucas pessoas que não tinha medo de assumir que era simplesmente idiota às vezes.

Ele admitira que fora idiota quando mandara Snape para o Salgueiro Lutador numa noite de lua cheia. Ele admitira que fora um idiota quando contara a Marlenne que estava ‘consolando’ mais duas garotas ao mesmo tempo em que ela. Ele admitira que fora um idiota ao decidir torcer para o Chuddley Cannons. Mas se havia um momento em que ele não estava preparado para admitir que era idiota, esse momento era precisamente o que estava vivendo.

Afinal, não havia sido absurdamente idiota, e apenas nessas situações ele admitia para si mesmo que fora idiota. Ele havia sido relativamente idiota, o que não era muito incomum no universo masculino.

Era esperado que ele se esquecesse do nome de uma garota depois de tantos anos, concluiu enquanto rodava nervosamente seu anel e descia o corredor. Era simplesmente normal que ele sentisse ciúmes de seus amigos com ela, porque ele não queria os perder para um pedaço de seu passado. Era absolutamente trivial que ele tivesse gritado com a garota. E, acima de tudo, não devia espantar ninguém que ele não quisesse que ninguém no mundo além de James soubesse que aquela menina de óculos havia sido seu primeiro beijo (especialmente se eles vissem fotos dela da época em que ele a beijara). Aquele beijo fora insignificante, apenas um pagamento pelo anel, uma retribuição educada a um presente.

Não é que ele sentisse vergonha do que fizera; era apenas que era uma coisa pessoal extremamente insignificante. Seus amigos não precisavam saber daquilo, assim como não precisavam saber que ele tivera medo do escuro até os oito anos de idade, e que ele já tivera uma queda pela professora Vector. Eram informações que não eram necessárias à amizade deles, e que, portanto, não deviam ser divulgadas.

Oh, Merlim. Eu estou comparando a Phebs com a professora Vector. Soube, neste exato instante, que podia ser um idiota assumido sem medos.

Aquela garota de óculos com quem ele tivera seu primeiro beijo era a causa de muitas coisas que ele era hoje. Fora ela e sua família que lhe ensinaram a não ter medo de ser quem queria ser, e de fazer o que gostava. Ela lhe ensinara o prazer de bolo de chocolate e a nadar no oceano com bóias, sem rir dele. Fora com ela que tomara seu primeiro picolé de limão, e que tivera seu primeiro beijo. Querer esconder isso – e se esquecer disso – era terrível e idiota da parte dele.

Com um suspiro triste, bateu a mão contra a parede para abrir uma passagem secreta que apenas ele e os outros Marotos conheciam. Ela o levaria diretamente à entrada da Torre da Ravenclaw, e assim que ele tivesse acesso à torre, respondendo uma charada impossível, pediria desculpas à Phebs por ser tão idiota. Nenhuma garota gostava de ser escondida, mesmo sendo de Escondido. E então, sem aquela culpa sobre seus ombros, podia descobrir quem ela havia se tornado nos últimos anos, ‘consolá-la’ um pouco e seguir em frente com sua vidinha pacata.

Estava mais ou menos na metade do caminho da passagem secreta quando ouviu os primeiros sinais de vida. Será que Peter viera ali com sua hufflepuff?

- Wormtail? – murmurou para o escuro, e os sons cessaram no mesmo instante. Hum. Curioso. Será que seria James, finalmente conseguindo domar a fera ruiva? – Prongs? – nada. O silêncio era tão profundo que ele podia sentir pessoas segurando suas respirações. Tirando a varinha do bolso, apontou para a passagem em frente – Lumos – e sob um jato de luz apareceram duas pessoas sentadas em um dos pequenos degraus ascendentes: Phoebe e um garoto de seus doze ou treze anos.

Os dois olharam para Sirius, seguravam suas varinhas com o efeito de Lumos ao máximo, e pareciam ligeiramente sérios. Phoebe colocou a mão no ombro do garoto e ficou de pé.

- Ei...

- Phebs! – Sirius se apoiou na parede para não cair de seu degrau, e a encarou sob a luz dos feitiços; o que ela estava fazendo ali? Era uma passagem exclusiva dos Marotos! Nem Dumbledore sabia daquela passagem! – O que você está fazendo aqui?

- Conversando... Leon, esse daqui é o Sirius, de quem te falei. Você era muito novo para se lembrar dele.

O garoto, de traços muito parecidos com o da irmã mais velha, observou o rapaz mais velho com curiosidade.

- Lembra um pouco o cara das fotos, é um prazer.

- Prazer... – Sirius estendeu a mão e apertou a do garoto, e então levantou os olhos para Phebs – O que vocês estão fazendo nessa passagem? Eu pensei que só nós soubéssemos onde ela ficava! – só percebeu que estava sendo rude com ela (a pessoa que já o agüentara sendo um idiota pelos últimos dias, sem merecer) quando terminou de falar e ela lhe lançou um olhar sério.

- Remie me mostrou. - ela disse, simplesmente. E olhou para o irmão - Depois vou mandar uma carta para papai sobre isso, mas por enquanto não se preocupe, aproveite o país novo, tá?

- Aqui é úmido demais - o garoto rolou os olhos - Mas ok, já vou, percebi que estou sobrando.

- Inteligência é uma característica da minha casa, espertinho! - ela disse para o irmão, mas ele já estava longe - Essas crianças de hoje em dia...

- Remus te mostrou essa passagem? – ele balbuciou, permitindo que sua varinha baixasse e se apagasse. Sentiu uma pontada no estômago com esse pensamento; Remus estava dividindo os lugares secretos dos Marotos com estranhos?

- Mostrou, algum problema com isso? - indagou, já estava se acostumando com aquele comportamento estranho do rapaz.

- Er... Não... Sem problemas – ele a encarou na penumbra; respirando fundo, criou coragem para fazer o que estava a caminho de fazer. – É que às vezes eu sou meio idiota mesmo. Eu achei que essa passagem era um segredo dos Marotos, mas parece que Remus quer espalhar esse segredo.

- Eu não vou sair contando isso para todo mundo, sabe... Remus pediu para eu não contar, e eu não vou - disse, cruzando os braços.

- Eu... – respirou fundo, ponderando as palavras que dissera, e se xingou mentalmente; fora ainda mais idiota! Será que conseguiria dizer uma frase que não fosse ofensiva? – Droga! Isso saiu errado... Eu... Phebs...

- Você? - indagou, parecendo menos receptiva ao rapaz a cada momento.

- Por que isso tem de ser tão difícil? – ele respirou fundo, e seu dedo foi automaticamente ao anel, e ele começou a girá-lo nervosamente – Eu fui idiota ontem. Eu não devia ter gritado com você, e nem tentado esconder sobre... Sobre... Bom, sobre a história do anel e tudo mais.

- Eu não sei o que aconteceu com você nos últimos anos, sabe... Mas você mudou muito - ela deu de ombros. - E é, você está se comportando como um idiota sim.

Por alguma razão desconhecida a Sirius, aquelas palavras o machucaram mais do que esperara. Quem ela achava que era para julgá-lo? Ele viera ali com a melhor das intenções, para pedir desculpas pela sua idiotice, e ela o criticava?

- Pare de fazer isso tão difícil! – ele respirou fundo e subiu um degrau – Eu vim aqui para pedir desculpas por ter agido daquele jeito, porque aquilo não sou eu, mas quem você está me forçando a ser! – subiu mais um degrau, o anel sendo girado tresloucadamente em seu dedão – Eu não gosto de ser um idiota, mas você não está facilitando muito!

- Eu estou forçando você?! - ela finalmente se revoltou - Pode me dizer exatamente o que eu estou fazendo para que você se comporte como esse débil mental aí?! - apontou para ele.

- Você está... – grunhiu, batendo o pé no chão e deixando seu anel em paz. Ele sabia em que ponto da discussão havia chego, mas estava com medo de deixá-la tomar seu curso natural – Você está sendo você! Andando por aí com essa expressão de ‘Eu conheço seus segredos, Black, não adianta se esconder!’ e contando todos eles para os meus amigos! – resolvido por não deixar aquela discussão tomar seu curso natural, e terminar em um armário de vassouras, continuou explicando o que não sabia como explicar – Você passa o tempo todo com os meus amigos! Você conhece nossas passagens secretas! Você está afastando a Evans do Seboso e aproximando ela do James! Você está sendo tudo o que eu não pude ser para eles, e tomando a minha vida de mim!

- Pelo amor de Merlin, Sirius, quantos anos você tem?! - foi a única coisa que ela conseguiu dizer, depois de ouvir tantos absurdos.

- Dezessete, por quê? Agora eu sou jovem demais para entender o seu plano maligno?

- Meu plano... - repetiu boquiaberta - Você é doido, é isso que você é. Está se comportando como uma criança mimada que não sabe dividir um doce!

- Eu sei dividir! – ele insistiu, absurdamente. Estava furioso com ela, consigo mesmo, com o mundo. Por que ele tinha de ser tão idiota? Com um suspiro chateado, se jogou em um degrau e sentou-se, se recusando a dizer mais.

- Oh, Merlin... - ela respirou fundo, e foi sentar-se ao lado dele. - Eu olho para você e vejo o mesmo garoto que conheci há sete anos atrás, só que um metro mais alto! Qual é o seu problema afinal?

- Eu não sei – ele admitiu depois de alguns segundos. – Se eu soubesse qual o meu problema, ele já teria acabado, não acha? – ele então prosseguiu enfiando o rosto nas mãos, se escondendo dela. – Mm tslfi – foi mais ou menos o que saiu a seguir.

- O que você disse? - ela perguntou, tentando evitar rir, mexendo no cabelo dele.

- Eu disse ‘me desculpe’ – ele tirou o rosto de entre as mãos e a encarou, apreciando por alguns instantes o toque em seu cabelo, antes que ela se afastasse e o encarasse suavemente.

- Está desculpado - disse, sem pensar uma segunda vez. - Não doeu, doeu?

- Chame madame Pomfrey, eu acho que vou morrer – ele abriu um sorrisinho para ela, e então baixou os olhos. – Você não acha que teria algum problema se você não contasse sobre o meu pequeno ataque pros outros, acha...?

- Não vou contar a ninguém que você se comportou como um ser humano normal e sociável, não se preocupe. - riu, enquanto meneava a cabeça em negativa.

- Obrigado, Phebs – e então, ficando de pé, abrindo um sorriso e estendendo uma mão. – Amigos?- ela olhou para a mão estendida, desconfiada.

- Podemos tentar, não somos as mesmas crianças de sete anos atrás. Mas não prometo nada.

- Apenas prometa que vai tentar – ele continuava com a mão estendida, esperando o aperto que decidiria sua vida juntos.

- Ok... - por fim apertou a mão dele. - Pads, é assim que te chamam, né?

- Para você vai ser sempre Snuffles – sorriu para ela, balançando a mão na sua e a soltando, finalmente.

- Existem regras nessa tentativa de amizade - disse, dando um passo para trás. - Eu já percebi o tipo de Don Juan, que você é, Sirius... Não pense em dar uma de engraçadinho para cima de mim, estou fora das suas tentativas, ok?

- Nem umazinha? – ele perguntou em um tom brincalhão, mas dentro dele algo estava morrendo. Então ela não queria ter nada com ele? Como uma garota podia não querer nada com ele? Decidindo que era apenas seu ego sendo ferido, deixou aquilo de lado, cansado de bancar o idiota assumido.

- Nem metade de uma - esclareceu.

- Você sabe como partir o coração de um rapaz – ele disse, com um sorriso, e então fez sinal para que galgassem os degraus até a Ravenclaw juntos. – Eu aceito seus termos, nobre senhorita; vou dar uma chance para essa amizade da qual as pessoas tanto falam.

- Perfeito! Então me conte, o que você fez nos últimos sete anos? - sorriu para ele, como não tinha feito até então. Ele podia sentir seu coração fazendo uma rápida descida até o estômago e voltando, diante daquele sorriso, e então respondeu.

- Me casei com uma odalisca, virei beduíno e inventei um alucinógeno feito de pus de bobutúbera – ele sorriu para ela, e os dois riram diante daquela declaração meio estapafúrdia. – Ok, vejamos... Eu entrei para a Gryffindor... Fui praticamente deserdado pela minha família desde então... Aí eu entrei pro time do quadribol e bati o meu irmão em todos os jogos, porque ele está em Slytherin... Virei um Maroto... Aí me encheram mais ainda o saco, até que eu não agüentei mais e fugi de casa... Comprei uma moto... E então ganhei o coração de todas as garotas do mundo.

- Você fugiu de casa? - indagou, surpresa, de todas as declarações essa foi realmente a que não esperava.

- Tecnicamente falando, se eu pegar todas as minhas coisas, jogar no meu malão, pular numa vassoura e me mudar pra casa do James é fugir de casa, sim, eu fugi. Mas como ninguém me perseguiu, eu acho que o termo mais apropriado seria ‘saí de casa sem a permissão dos meus pais e nunca mais voltei’.

- Estou orgulhosa de você... - falou, e parou de andar de repente. - Por Circe, nunca pensei que diria isso a alguém que fugiu de casa!

- Tudo bem, eu não sou um alguém qualquer – ele sorriu para ela. – E você, quais são as novidades?

- Estudei em quatro escolas diferentes nos últimos sete anos, se você contar Hogwarts, conheci muita gente, a maioria não me marcou muito - disse, olhando para o teto - Não fugi de casa, meus pais continuam sendo iguais ao que você lembra. Não tenho uma moto, mas ganhei um carro quando fiz dezesseis, só que ele ficou na América quando viemos para cá.

- E por que se mudaram tanto? Seu pai entrou para o exército?

- Não... Exatamente - a garota ficou, séria - As revoluções que estão acontecendo nos EUA, você não leu no jornal? - indagou, mas depois pensou melhor - Não sei se saiu nos jornais daqui.

- Revoluções? – ele ergueu as sobrancelhas – Não, não apareceu nada nos jornais; e se saiu, eu não vi. Eu não leio o jornal.

- Existem leis antigas que provocaram a segregação dos mestiços e nascidos trouxas nos EUA – contou. - No começo da década subiu ao poder um Presidente da esquerda, e os bruxos foram às ruas pedindo direitos iguais, que o presidente concedeu. Os sangues puros não gostaram nada disso, começaram ataques por todo país.

- Ah... – ele abriu um sorrisinho incerto; tinha dezessete anos e nenhum desejo de saber sobre revoluções políticas. Ainda estava na escola, e sua maior preocupação era se os elfos serviriam pudim no almoço, e estava muito feliz assim, obrigado. Não precisava daquelas idéias, daquele conhecimento, de saber sobre a segregação, e sobre a loucura do mundo; só queria livros de Transfiguração e passeios nos jardins. Ser adulto era difícil demais, e era por isso que ele não lia jornais – Que coisa, não? – deu de ombros, tentando afastar o tópico, e expandiu seu sorriso – Você continua sendo viciada em sorvete?

A garota o observou como se o rapaz tivesse acabado de ganhar outra cabeça, mas então levou a mão ao rosto. Aquele era o que Sirius se tornara, simplesmente não dava para mudar.

- Creio que sim... – então ele deu uma volta de cento e oitenta graus no calcanhar, e fez sinal para que ela o seguisse.

- Então você precisa descobrir o prazer de tomar o sorvete dos elfos de Hogwarts. Vamos – acenou mais uma vez, descendo as escadas em passos serelepes, feliz de deixar para trás o tópico pesado.

- Definitivamente, você ainda tem dez anos de idade - murmurou para si mesma, tentando alcançá-lo.

- Você vai descobrir eventualmente que a comida dos elfos é melhor do que qualquer uma que você já provou. Quando eu morava com os meus pais, eles tinham um elfo, Kreacher, que era horrível. Ele só fazia coisas horríveis para mim, aquele elfo velho, e quando eu cheguei aqui em Hogwarts, foi como ser revelado para a luz divina; a comida é simplesmente fantástica. Você precisa provar o pastelão de rins deles. Eu lembro que levei pastelão de rins para o último piquenique que fiz com Joselyn Harbor, e ela simplesmente ficou tão mais interessada no pastelão do que em mim que eu acho melhor não te dar pastelão enquanto estivermos juntos, senão meu ego vai para o chão mais uma vez – respirando fundo, percebeu que sua boca desembestara em seu caminho tortuoso para chegar no tópico que mais desejava abordar. – E você, como foi seu último encontro?

- Meu último encontro? - indagou, tentando acompanhá-lo, ele falara muita coisa e muito rápido.

- Sim, seu último encontro. Você não foi trocada por um pastelão de rins, foi?

- Calma, Sirius, por favor... - pediu, segurando-o pelo braço. - Qual é o tópico exatamente? – ele respirou fundo, parando no corredor e baixando os olhos.

- Er, o tópico é vida amorosa. Como vai a sua?

- Wow... - a garota coçou a cabeça, sem graça. - Não estou interessada nisso por enquanto - disse, evasiva.

- Você não tem vida amorosa? - ele arqueou as sobrancelhas, levantando os olhos para encará-la e sorrindo.

- Só porque você anda se agarrando com qualquer uma em qualquer esquina, não significa que o resto do mundo siga a mesma regra, Pads - disse, com um quê espertalhão. - Prefiro singularidade e qualidade. Até ter isso, estou muito bem sozinha.

- Eu não me agarro com qualquer uma! Eu distribuo igualmente o meu amor entre as garotas necessitadas!

- Bom para você... Aposto que essas garotas necessitadas são suas amigas, que lhe apoiariam em qualquer situação, pessoas com quem você pode contar independentemente do que for, não é?

- Não. Eu nunca falei que elas eram minhas amigas. Eu apenas disse que elas precisavam de amor e eu, ao contrário da maior parte dos homens, estou pronto para dar amor a elas.

- Você pode dar muitas coisas para elas, mas nenhuma delas é amor. - disse, parando de andar e o olhando bem.

Ele não respondeu por um longo momento, pesando aquelas palavras.

- Você sabe o que é o amor, Phebs?

- Sei que não é deixar hormônios comandarem seu corpo ao bel prazer - disse, arrumando os óculos que escorregavam pelo nariz - Isso é tesão e sexo, comportamento animal para reprodução. Puro instinto.

- E quem disse que é isso o que eu estou fazendo? – ele voltou a caminhar – Quem disse que o que eu dou para elas não é exatamente o que elas precisam ter, e que se preocupar o suficiente com uma mulher para saber o que ela quer a fim de dar exatamente isso para ela não é amor? Não existe uma definição para o que é amor – ele falou, olhando por cima do ombro para ter certeza de que ela o acompanhava. – Então não há como ter certeza de que o que eu sinto por elas não é amor. – levantou uma sobrancelha, abrindo um sorriso que a provocava a contestar sua lógica.

- Me diga algo então, espertalhão, compare o sentimento por suas "garotas" com o sentimento que você tem por seus amigos... Qual é o mais importante?

- Meus amigos, lógico – ele respondeu, prontamente. – Nenhum amor se compara a amizade. Eu morreria por aqueles três.

- Amizade é uma espécie de amor, meu caro... Só que não envolve pegação. - disse, prática - Quando você encontrar alguém que seja tão importante quando os marotos, aí vai ser amor.

Ele não respondeu aquela afirmação. Seguiu em silêncio até alcançarem a cozinha, e então coçou a pêra e sorriu para ela.

- Bem vinda ao paraíso na terra dos sorveteiros.

A garota olhou com curiosidade para o lugar, os pequenos elfos correndo de um lado para outro.

- Realmente podemos entrar aí?

- Claro, contanto que ninguém descubra – ele sorriu para ela e fez um gesto para o elfo mais próximo. – Tipi, você pode arranjar pra gente um balde de sorvete de chocolate, por favor? – o elfo fez uma reverência exagerada e abriu um sorriso de orelha a orelha, feliz com o trabalho.

- Sim, meu mestre, Tipi arranjar sevete para mestre e mestra! Sevete de chocolate? E bolo! Sevete é bom com bolo quente! – e se perdeu na massa de elfinhos, indo em busca de sorvete e bolo quente.

- Ótimo. Vamos à mesa, senhorita – ele levantou a mão e apontou para a mesa, ao que Phoebe encarou a mão estendida com curiosidade.

- Você nunca o tira? - indagou, curiosa, apontando para a peça de prata.

- O quê? – ele encarou para onde ela apontava e então sorriu, começando a andar para a mesa enquanto observava o brilho do anel sob a luz das velas. – Ah, esse anel é como uma extensão do meu corpo. Eu nunca o tiro.

- Eu te reconheci quando você estava fazendo o showzinho com o Remus por causa dele...

- Bendito seja o anel! – ele falou, sorrindo, e se jogou em um dos bancos próximos às mesas da cozinha. – Eu te reconheci por causa dos seus olhos.

- Meus olhos? - surpreendeu-se. - Meus olhos castanhos e comuns?

- Seus olhos castanhos e comuns? – ele sorriu para ela e balançou a cabeça. – Seus olhos castanhos não têm nada de comum. Quando você olha dentro dos seus olhos, é como se... É como se o mundo estivesse eternamente no outono. É como observar um mar de mel e avelãs. Seus olhos são meio hipnóticos, sabe? Eu me lembro de ter dez anos e encará-los como se fossem os olhos mais bonitos do mundo; e agora que eu venho a pensar, talvez eles sejam mesmo – sorriu para ela, com medo de estar ultrapassando algum limite invisível da amizade para qual estavam dando uma chance, mas não pôde se conter. Não poderia a deixar vivendo naquele mundo obscuro de negação; os olhos dela eram irresistíveis, e ela tinha de sabê-lo.

A garota ergueu-se imediatamente começando a se servir do sorvete que o elfo acabara de lhes servir.

- Muito gentil da sua parte, fazer o discurso sobre meus olhos castanhos e não tão comuns, mas, por favor, não repita o gesto. Não tem porquê... - disse, sentindo as faces quentes.

- Esse sorvete é ótimo, não é? – ele perguntou, feliz ao ver as bochechas dela vermelhas, mas chateado por ter ultrapassado uma linha invisível; não queria estragar tudo depois de apenas alguns minutos de amizade. Queria se provar que tinha força de vontade o suficiente para ser apenas amigo dela.

- É sim... - teve que concordar, e tirou os óculos por um momento para limpá-los na barra da blusa.

Sirius segurou a colher cheia de sorvete a meio caminho da boca, e a encarou. Aquela garota era tão diferente da menininha que conhecera na praia, de corpo e de alma. Não conseguia ver a menina estabanada escondida atrás daqueles olhos castanhos enigmáticos, com formato amendoado, e nem nos lábios que ela costumava manter espremidos em uma linha fina; não havia nada mais de menina no nariz levemente arrebitado ou na mecha de cabelo castanho que escapava de minuto em minuto do rabo de cavalo, se enlaçando teimosamente no aro dos óculos.

E agora que ela estava sem óculos, ele não conseguia deixar de sentir-se embasbacado; ela não tinha nenhum traço extremamente marcante, nada de único no rosto, além daqueles olhos mais inebriantes que álcool, e ainda assim, algo na maneira como ela se portava, algo no brilho dos olhos, no entortar dos lábios num eterno esgar de sorriso, era simplesmente entorpecente. Enquanto ela limpava os óculos na barra da blusa, ele observou o tecido se roçando gentilmente contra a pele lisa dela, com uma ou outra sarda, e o corpo que tanto havia mudado desde a última vez que ele a vira.

Estava tão entretido em observá-la, que não percebeu quando o sorvete que tinha em sua colher caiu em seu colo até que sua coxa começou a ficar gelada.

- MERDA! – pulou de pé, jogando a colher na mesa e levanto a mão ao pedaço de seu corpo que estava levemente congelado.

- O que foi? - indagou, surpresa, recolocando os óculos.

- O sorvete! Ele caiu no meu colo! – apontou para a mancha marrom em suas calças, parecendo exasperado. O que raios estava pensando ao se deixar levar assim? – Tá gelado!

- É sorvete, esperava o quê? - indagou, rindo, e pegou a bolsa que trazia a tiracolo, tirando de lá um lenço branco, com o qual começou a limpar o bendito sorvete. Ele fez uma careta enquanto ela esfregava a calça dele com um pouco mais de força que o necessário, e a encarou.

- Obrigado.

- De nada. - falou, e o lenço sumiu num aceno de varinha. A garota voltou a se dedicar à apreciação do sorvete, Sirius a acompanhando silenciosamente.


- Boa noite, Pads.

- Boa noite, Wormtail.

- Boa noite, Moony.

- Boa noite, Prongs.

Praticamente ao mesmo tempo, os quatro Marotos se ajeitaram na cama – Sirius de barriga para cima, James de lado, Peter todo encolhido e Remus rolando de um lado a outro até achar a mágica posição confortável da noite – e fecharam os olhos. O silêncio caiu sobre o dormitório, como acontecia todas as noites, e um a um eles foram entrando no território dos sonhos. Mas, inusitadamente, Sirius, e não Remus, era o último a dormir naquela noite.

Deitado em sua cama confortável, os olhos fechados, sua mente corria a mil. Pensava sobre várias coisas, desde a deserção da maioria de seus amigos perante ele, até como estaria sua prima Andrômeda depois de ter acabado de ter um bebê e, principalmente, sobre Phebs e a tarde que haviam passado juntos.

Uma amiga.

Nunca em sua vida tivera uma amiga. Sua última amiga havia sido a própria Phebs, quando tivera dez anos, e depois daquilo, o mais próximo havia sido Lily, mas ela praticamente o odiava. Não tinha certeza de como travar uma amizade com uma garota, e quais eram os limites a respeitar – aparentemente cruzara alguns deles durante aquela tarde -, mas por alguma razão se sentia animado ante a expectativa de poder virar para alguém e dizer “essa é Phoebe, minha amiga“. Não tinha certeza, também, sobre como fariam aquilo dar certo; ele parecia fazer tudo errado, dizer todas as coisas que não devia, pensar tudo o que não era pensável, e ainda assim tinha esperanças. Esperanças de que poderia contar com Phoebe tanto quanto contava com os Marotos, e de que a amaria um dia à mesma extensão que os amava.

Passou longos minutos deitado em sua cama, deixando seus pensamentos fluírem por campos antes nunca visitados – como a pergunta de Phebs se ele achava que dava amor de verdade a todas suas garotas -, e uma sensação agradável cresceu com ele enquanto suas cobertas captavam o calor de seu corpo e o mandavam de volta, o envolvendo em um mundo morno e seguro; a sensação de que as coisas, a partir dali, seriam feitas da maneira certa.

Desde que partira da casa dos pais, tinha a sensação de que tudo o que fazia era errado, e a culpa morava dentro de seu coração eternamente; estar com Phebs era como voltar à época em que ainda fazia as coisas direito, e ela parecia lhe apontar o caminho certo a se seguir claramente. Estar com Phebs era quase como ganhar uma nova consciência, muito mais consciente que a sua própria.

E enquanto os roncos nada suaves de seus amigos começavam a emplastar o quarto, ele pôde sentir a culpa lhe deixando em paz pela primeira vez em meses; e foi com aquela sensação de leveza e liberdade que só vem com um coração puro que ele finalmente dormiu.


N.A.: Oi de novo, gente bonitaaaaaaaa!!!!! Gostaríamos de agradecer especialmente a Ale e a Laura pelos comments carinhosos, e a todo mundo que votou em Estrela, colocando ela no ranking! Estamos muito honradas, de verdade! Vocês são ótimos! ^^ Continuem plugados, daqui duas atualizações temos o próximo capítulo da história de Sirius e Phebs, e quem sabe – se dermos sorte – ele não deixa de ser um idiota completo? Xd Lembrem-se: nós vivemos por reviews!!!